Quanto Vale a Ipiranga?

<p>Potencial desinvestimento leva mercado a revisar avaliação, margens e riscos regulatórios no setor de combustíveis.</p>

Brazil Stock Guide – A possível venda da área de distribuição de combustíveis da Ultrapar Participações (B3: UGPA3; NYSE: UGP) gera interesse na precificação do ativo. Um relatório publicado pelo BTG Pactual, em 12 de fevereiro, projeta que a Ipiranga deverá gerar R$3,996 bilhões em EBITDA em 2026, o equivalente a cerca de 54% do resultado operacional consolidado da Ultrapar. Na prática, mais da metade da geração de caixa operacional do grupo depende do ativo colocado sob revisão.

Essa concentração no maior ativo do grupo Ultra torna a precificação determinante.

Referência Setorial

A maior distribuidora de combustíveis do país, Vibra Energia (B3: VBBR3), tem projeção de R$7,165 bilhões em EBITDA em 2026 e negocia a aproximadamente 6,6 vezes o valor da empresa (enterprise value) sobre EBITDA. O indicador considera capital próprio e dívida líquida e é amplamente utilizado na comparação de companhias intensivas em capital.

Aplicado o múltiplo da Vibra à Ipiranga, o valor estimado gira em torno de R$26 bilhões (cerca de $5,2 bilhões).

Um cenário mais conservador, a 5 vezes o EBITDA, indicaria aproximadamente R$20 bilhões. Já uma transação estratégica — envolvendo grandes petrolíferas globais ou investidores institucionais em busca de escala na América Latina — poderia sustentar múltiplos entre 8 e 9 vezes o EBITDA. Nesse caso, a estimativa ficaria entre R$32 bilhões e R$36 bilhões.

No extremo superior dessa faixa, a Ipiranga isoladamente se aproximaria ou até superaria o atual valor de mercado da Ultrapar, estimado em cerca de R$29,7 bilhões.

Margens e Disciplina de Mercado

A distribuição de combustíveis no Brasil opera com margens estreitas e alto volume. Pequenas variações no ganho por metro cúbico têm impacto relevante nos resultados. Quando as margens se ampliam e os volumes crescem em torno de 5% ao ano, a avaliação tende a aumentar rapidamente.

Essas margens, porém, dependem não apenas de eficiência operacional, mas também de disciplina concorrencial e fiscalização regulatória.

Investidores esperam maior rigor no combate a irregularidades fiscais no setor, o que poderia contribuir para maior estabilidade das margens. Distribuidoras formais de grande porte costumam se beneficiar quando o ambiente de compliance melhora e distorções competitivas diminuem. Em sentido oposto, desaceleração econômica pode reduzir a demanda por combustíveis e pressionar a rentabilidade.

Em um segmento no qual poucos reais por metro cúbico podem se traduzir em bilhões no valor da empresa, previsibilidade regulatória e estabilidade macroeconômica tornam-se fatores centrais de precificação.

O Que Está em Jogo

Uma eventual venda da Ipiranga representaria a mudança estrutural mais relevante da Ultrapar desde 2007, quando o antigo Grupo Ipiranga foi desmembrado: ativos de refino e parte da distribuição ficaram com a Petrobras e a área petroquímica foi incorporada pela Braskem. A saída da Ipiranga hoje reposicionaria a Ultrapar como uma holding mais focada em energia e logística, concentrada em Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil.

Para o mercado, o preço final da operação funcionará como sinal. Uma transação próxima de R$30 bilhões validaria os múltiplos atuais do setor e reforçaria o balanço da companhia. Um valor inferior poderia refletir cautela quanto à sustentabilidade das margens e à previsibilidade regulatória.

A Ipiranga também é uma das marcas mais reconhecidas do país. Sua campanha publicitária consolidou o personagem “Posto Ipiranga”, mais tarde citado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao delegar temas econômicos ao então ministro da Economia, Paulo Guedes. A expressão entrou no vocabulário político brasileiro como sinônimo de delegação de decisões econômicas.


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