Por Brazil Stock Guide – A Raízen (RAIZ4), empresa brasileira de bioenergia e distribuição de combustíveis controlada pela Shell e pela Cosan (CSAN3), entrou com pedido de recuperação extrajudicial em São Paulo como parte de um plano para reestruturar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras sem garantia, segundo fato relevante divulgado pela companhia.
A reestruturação foi negociada previamente com credores que representam cerca de 47% dos créditos incluídos no processo, o que permitiu à empresa protocolar formalmente o plano com base na legislação brasileira de recuperação e falências. Caso seja homologado pela Justiça, a Raízen terá até 90 dias para obter o apoio adicional necessário para vincular todos os credores afetados às novas condições de pagamento.
O plano pode incluir diversas medidas financeiras, como novos aportes de capital por parte dos acionistas, conversão de parte da dívida em ações, emissão de novos instrumentos de dívida, venda de ativos e reorganizações societárias, incluindo a possível separação de algumas unidades de negócio, de acordo com a empresa.
A reestruturação ocorre em meio a uma elevada carga de endividamento acumulada após anos de forte expansão. A companhia tem dívida bruta de cerca de R$ 72,4 bilhões, segundo materiais do último trimestre apresentados a investidores. O perfil de vencimentos indica forte necessidade de refinanciamento nos próximos anos, com aproximadamente R$ 45 bilhões em obrigações vencendo até 2030, o que aumenta a pressão sobre o balanço.
Na última década, a Raízen se consolidou como uma das maiores empresas integradas de bioenergia do mundo, operando dezenas de usinas de açúcar e etanol e uma das maiores redes de distribuição de combustíveis do Brasil. Essa estratégia exigiu investimentos bilionários, incluindo aquisições, expansão logística e ampliação da capacidade industrial.
O crescimento acelerado, porém, teve custos. A dívida da companhia aumentou significativamente em um ambiente de condições de financiamento mais restritivas, enquanto a geração de caixa não acompanhou o ritmo dos investimentos. O resultado foi maior alavancagem financeira e pressão crescente de credores e investidores por um plano consistente de redução da dívida.
As discussões sobre como estabilizar a companhia também expuseram diferenças estratégicas entre os acionistas. Segundo pessoas próximas às negociações, a Shell apoia um aumento de capital de cerca de R$ 3,5 bilhões para reforçar o balanço da Raízen e sinalizar compromisso com os credores.
Já a Cosan, cuja base acionária inclui investidores com forte influência do BTG Pactual, teria defendido uma solução mais estrutural, como a separação dos negócios da Raízen, isolando as operações de produção de açúcar e etanol da rede de distribuição de combustíveis.
Uma eventual cisão poderia destravar valor e permitir estratégias financeiras diferentes para cada segmento, mas também representaria uma mudança relevante no modelo integrado que marca a companhia desde sua criação, em 2011, liderada pelo empresário Rubens Ometto, co-controlador da Cosan.
A Raízen afirmou que o pedido de recuperação extrajudicial se aplica apenas às dívidas financeiras e não afeta compromissos com clientes, fornecedores ou parceiros operacionais, destacando que a empresa continuará operando normalmente enquanto negocia com os credores.
Raízen – Perfil de vencimento e amortização da dívida
| Ano | Vencimentos / Amortizações | Observações |
|---|---|---|
| 2026 | ~R$ 8 bilhões | Primeira onda de empréstimos bancários e obrigações financeiras de curto prazo |
| 2027 | ~R$ 10 bilhões | Inclui bonds internacionais com vencimento em 2027 |
| 2028 | ~R$ 12 bilhões | Forte pressão de refinanciamento de dívidas bancárias e de mercado |
| 2029 | ~R$ 7 bilhões | Combinação de instrumentos do mercado de capitais doméstico e empréstimos |
| 2030 | ~R$ 8 bilhões | Amortizações de dívida de médio prazo |
| Após 2030 | ~R$ 27 bilhões | Bonds internacionais de longo prazo com vencimentos entre 2031 e 2054 |
Dívida bruta total: ~R$ 72,4 bilhões
Dívida líquida: ~R$ 55 bilhões
Dívida com vencimento até 2030: ~R$ 45 bilhões
Leia mais: A fortaleza financeira da Cosan
