By Brazil Stock Guide — Pressionada por uma dívida elevada e risco crescente de inadimplência, a Oncoclínicas (ONCO3) corre contra o tempo para reorganizar seu balanço e evitar um possível default — enquanto o mercado discute a entrada da Porto Seguro (PSSA3) como potencial investidora estratégica.
A possibilidade de investimento ganhou força após a revelação de que a Porto havia apresentado uma proposta para injetar cerca de R$1 bilhão na companhia, segundo reportagem do Brazil Journal. Após o vazamento da informação, a Oncoclínicas confirmou ao mercado, neste domingo, que havia assinado um memorando de entendimentos preliminar (Term Sheet) com a seguradora para avaliar uma potencial operação estratégica.
A turbulência financeira também provocou uma rápida reorganização na liderança da empresa. Na reunião de conselho realizada no domingo, os conselheiros formalizaram a renúncia de Camille Loyo Faria aos cargos de vice-presidente executiva, diretora financeira e diretora de relações com investidores. A executiva havia sido contratada em fevereiro justamente para conduzir o processo de reestruturação financeira da companhia.
Na mesma reunião, o conselho elegeu Marcel Cecchi Vieira para assumir simultaneamente os cargos de vice-presidente executivo, diretor financeiro e diretor de relações com investidores.
Aporte em discussão
Segundo a empresa, o memorando assinado com a Porto representa apenas uma etapa preliminar das negociações e não configura compromisso vinculante entre as partes.
A eventual operação ainda depende da realização de due diligence, da negociação de contratos definitivos e de aprovações internas.
O desenho discutido envolve a separação das cerca de 200 clínicas da Oncoclínicas em uma nova subsidiária, na qual a Porto Saúde faria um aporte de aproximadamente R$1 bilhão.
Metade do valor seria investida como capital e metade por meio de uma debênture conversível em ações, estrutura que poderia garantir à operadora cerca de 33% do capital econômico e 66% das ações votantes da nova empresa.
Hospitais e operações internacionais ficariam fora dessa estrutura, enquanto as clínicas — responsáveis pela maior parte da geração de EBITDA da companhia — formariam o núcleo do negócio.
Conselho dividido
A assinatura do memorando de entendimentos foi aprovada por maioria em reunião do conselho de administração realizada em 13 de março, mas dois conselheiros votaram contra a operação: Marcos Grodetzky e Raul Rosenthal Ladeira de Matos.
Os votos contrários evidenciam divergências internas sobre os termos e os riscos da potencial transação em meio ao processo de reestruturação financeira da companhia.
Troca de comando
A turbulência financeira também provocou uma rápida reorganização na liderança da empresa.
No início de março, Carlos Gil, até então diretor médico da rede, assumiu como CEO interino, substituindo o fundador da companhia, Bruno Ferrari, que permaneceu no conselho de administração.
Dívida elevada
A possível operação com a Porto ocorre em um momento de forte pressão financeira sobre a companhia.
A Fitch Ratings rebaixou recentemente o rating nacional de longo prazo da Oncoclínicas para C(bra), nível que indica risco extremamente elevado de inadimplência.
Segundo a agência, a empresa enfrenta liquidez limitada para honrar seus vencimentos de dívida, com projeção de caixa inferior a R$100 milhões no fim de 2025, frente a R$745 milhões em dívidas com vencimento em 2026 e R$810 milhões em 2027.
A dívida líquida da companhia gira em torno de seis vezes o EBITDA, enquanto a Fitch projeta fluxo de caixa operacional negativo próximo de R$600 milhões.
Próximos passos
A Oncoclínicas convocou assembleias de debenturistas para discutir um standstill, mecanismo que suspende temporariamente pagamentos da dívida enquanto a companhia tenta negociar uma solução mais ampla com credores.
A assembleia marcada para 24 de março será um dos próximos testes para a empresa.
Para analistas do setor, a combinação de negociações com credores, possível entrada de um investidor estratégico e divergências internas na governança indica que as próximas semanas serão decisivas para definir o futuro da rede de oncologia.
