A geopolítica do Plástico: O impacto na Braskem

<p>Choque do petróleo aperta a oferta, eleva preços e dá um respiro frágil à petroquímica brasileira.</p>

A Braskem não saiu da crise — mas o mundo pode estar piorando rápido o suficiente para ajudá-la. Após meses em que o mercado flertava com cenários de reestruturação, incluindo recuperação judicial ou extrajudicial, a petroquímica brasileira começa, enfim, a respirar.

O gatilho vem de fora — e é tudo menos benigno. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã não apenas elevou os preços do petróleo e seus derivados, como também começou a redesenhar a estrutura global de oferta. O que começou como um choque de preços rapidamente se transformou em escassez física de matéria-prima. Na Ásia, produtores cortam produção, operam no limite e já alertam para paralisações. Japão e Coreia do Sul têm apenas algumas semanas de estoque. Em alguns casos, não é mais uma questão de preço — mas de disponibilidade.

O efeito, no entanto, não é uniforme. Nos Estados Unidos, o mesmo choque virou oportunidade. Produtores como Dow e LyondellBasell — baseados em gás natural, e não em nafta — passaram de um ciclo deprimido para uma expansão quase instantânea de margens. Os preços sobem com velocidade incomum, plantas operam próximas da capacidade máxima e as ações disparam. Com o Oriente Médio parcialmente fora do jogo, o Golfo do México voltou a ser o centro da arbitragem global. Produtores americanos estão redirecionando volumes para Europa e Ásia, onde as margens são mais elevadas.

É nesse cenário que a Braskem encontra algum alívio. Como produtora baseada em nafta e integrada à Petrobras, ela não tem a mesma vantagem estrutural de seus pares americanos. Ainda assim, em um mercado mais apertado, até players mais frágeis conseguem recompor preços — especialmente em seus mercados domésticos. Mas isso não é exatamente poder de precificação. Os aumentos recentes refletem, em grande parte, repasse de custos em um mercado sem referência clara — com oferta limitada, volumes racionados e baixa visibilidade. Medidas locais ajudam, mas são secundárias: extensão do antidumping, tarifas sobre importados e algum suporte regulatório à cadeia.

O impulso vem de fora — e, portanto, é instável. O que pode parecer uma virada de ciclo é, na verdade, uma uma brusca volatilidade. No início da década, o mercado já antecipava compressão de margens — até que a pandemia produziu um pico artificial de rentabilidade. Em 2021, a Braskem registrou EBITDA recorde de US$ 5,2 bilhões — um número que dizia mais sobre a escassez global do que sobre a empresa. Para 2026, o mercado projeta um EBITDA próximo de US$ 700 milhões.

O risco agora é confundir alívio com solução. A mesma escassez que sustenta margens também corrói a demanda, acelera o fechamento de capacidade e reorganiza a indústria global. Se os Estados Unidos emergem como vencedores temporários, o resto do mundo — incluindo a Braskem — opera mais por sobrevivência do que por vantagem. A dívida de cerca de R$ 50 bilhões da petroquímica – e seus efeitos nefastos – não desaparece de uma hora para outra. O novo ambiente não resolve a empresa — mas pode mudar o preço pelo qual ela será negociada. Para a Braskem, isso não é exatamente estratégia. É, em parte, sorte.


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