Bancos fragmentados?

<p>IA, stablecoins, fintechs e private credit não destroem bancos. Apenas roubam os pedaços mais rentáveis.</p>

Os bancos não estão sendo destruídos. Estão sendo fatiados. A provocação mais interessante em uma nota recente do BTG Pactual, baseada em estudo da Bain, é que os bancos tradicionais ainda ganham muito dinheiro, mas já não controlam o mesmo território. Sua fatia no mercado endereçável de receitas bancárias teria caído de cerca de 95% no início dos anos 2000 para algo próximo de 80% hoje — e poderia recuar para 65% até 2030. É um fenômeno de uma erosão lenta.

A ameaça não é apenas das fintech. Os grandes bancos sobreviveram bem à primeira onda digital. Melhoraram aplicativos, aceitaram contas gratuitas, conviveram com cartões sem anuidade e enfrentaram pagamentos instantâneos. Tinham capital, funding barato, marca, dados, base de clientes e confiança. Muitos perderam tarifas, mas preservaram crédito, relacionamento, seguros, investimentos e balanço. A nova onda é mais perigosa porque não tenta substituir o banco inteiro. Come pelas beiradas.

IA reduz custo operacional, melhora análise de risco e automatiza serviços antes protegidos por escala humana. Stablecoins desafiam pagamentos internacionais, liquidação e parte da infraestrutura transacional. Private credit desloca a intermediação de crédito para fora do balanço bancário. Plataformas digitais capturam a relação com o cliente e empurram o banco para trás da cortina. O risco não é o consumidor acordar amanhã sem banco. É ele usar menos o banco justamente onde o banco ganha mais dinheiro.

Durante décadas, o maior banco parecia também o banco mais forte. Agora, tamanho virou uma vantagem ambígua. Escala ainda importa: reduz custo de funding, amplia distribuição, sustenta investimento em tecnologia e dá capacidade de atravessar crises. Mas também pode significar sistemas legados, comitês demais, produto lento, agência demais, burocracia demais e medo demais de canibalizar receitas antigas. Um banco pode ser grande o suficiente para dominar o passado e pesado demais para capturar o futuro.

A ironia é que os bancos reclamam de competição desigual — e têm razão parcial. Fintechs e non-banks operam, muitas vezes, sob menor peso regulatório. Não carregam a mesma estrutura prudencial, não têm as mesmas obrigações de capital e podem escolher pedaços mais rentáveis da cadeia. Mas essa mesma regulação também protegeu os incumbentes por décadas. O perímetro regulado era caro, mas lucrativo. Agora, parte do lucro escapa para fora dele, enquanto o custo de permanecer dentro continua alto.

Isso não significa que os bancos vão desaparecer. Confiança, liquidez, balanço e capacidade de atravessar crises ainda valem muito. Em momentos de estresse, o mercado redescobre rapidamente a diferença entre aplicativo bonito e instituição capaz de emprestar, absorver perdas e manter acesso a funding. O banco continua sendo infraestrutura crítica. Mas ser infraestrutura crítica não garante capturar todo o valor gerado ao redor dela.

O futuro talvez seja menos universal do que os bancos gostariam. A instituição vencedora pode não ser aquela que oferece tudo, mas aquela que é indispensável em alguma coisa: crédito, pagamentos, infraestrutura, dados, distribuição, custódia, risco ou confiança. O banco universal não morreu. Mas o privilégio de ser universal ficou caro demais. O fosso não desapareceu de uma vez. Ele está sendo atravessado por pontes construídas fora do banco.


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