Em um mês, BofA vê Brasil sair de “novo ouro” para teste de risco

<p>Banco de Wall Street não abandonou a visão positiva para o país, mas alerta para riscos diante de petróleo alto, juros globais e ruído político.</p>

By Brazil Stock Guide – O Brasil passou, em pouco mais de um mês, de “novo ouro” dos mercados emergentes no Bank of America para uma aposta mais frágil, agora testada pelo aumento do risco global.

Em relatório mais recente, após reuniões com investidores em Londres e Paris, os estrategistas do BofA David Beker e Paula Soto apontaram uma mudança clara de tom em relação à América Latina. Algumas semanas antes, os clientes esperavam o fim da guerra para aumentar a exposição à região. Agora, a principal dúvida é se precisam reduzir ainda mais o risco em ativos latino-americanos.

A mudança reflete uma combinação de petróleo mais alto, pressão sobre os juros globais, risco de inflação mais persistente e maior incerteza política em países como Brasil, Colômbia e Peru. A rotação global de ações de valor para tecnologia também pesa sobre o apelo relativo das bolsas latino-americanas.

A leitura marca uma inflexão em relação a meados de abril. Em relatório publicado em 14 de abril, intitulado “Brazil: the new gold?”, o BofA dizia que as ações brasileiras e o real vinham superando outros mercados emergentes, sustentados por fluxo estrangeiro, dólar mais fraco e busca global por retorno.

O relatório, também assinado por David Beker, além de Natacha Perez, argumentava que anos de baixa alocação em América Latina haviam aberto espaço para investidores reconstruírem posições na região. O Brasil se destacava por combinar liquidez, exposição a commodities e juros reais ainda elevados — uma mistura rara no mercado global atual, escreveram os analistas há pouco mais de um mês.

Naquele momento, a tese parecia cada vez mais próxima de ser validada pelos preços. O Ibovespa caminhava para a marca simbólica dos 200 mil pontos, depois que o BofA elevou sua projeção para o índice ao fim de 2026 de 180 mil para 210 mil pontos. O rompimento, porém, não aconteceu. O benchmark está agora ao redor de 176 mil pontos, transformando o que parecia embalo em teste de convicção.

Em abril, o banco chegou a dizer que o Brasil se comportava como um “ativo livre de risco”, em referência à força simultânea da bolsa e da moeda brasileira. O risco político também parecia ter perdido peso no curto prazo, com investidores menos convencidos de que a eleição necessariamente provocaria uma venda forte de ativos locais.

Uma semana depois, o BofA reforçou a visão construtiva. Em outro relatório, o banco manteve o Brasil como sua principal posição overweight entre os emergentes, apoiado na expectativa de dólar mais fraco, continuidade dos fluxos estrangeiros, desescalada geopolítica e cortes graduais de juros no país.

O BofA projetava a Selic em 13,25% no fim de 2026 e em 12,50% em 2027, além de crescimento de 27% no lucro por ação das empresas domésticas brasileiras em 2026.

Até agora, o banco não sinalizou uma reversão formal de sua recomendação para o Brasil nem um corte público no alvo de 210 mil pontos para o Ibovespa. Mas o relatório mais recente mostra que a tese de investimento ficou mais estreita — e o movimento do mercado torna essa mudança mais difícil de ignorar.

Em abril, o Brasil parecia um destino natural para investidores globais em busca de liquidez, carry trade e exposição a mercados emergentes. Em maio, esses mesmos vetores passaram a depender de condições mais frágeis: o dólar precisa seguir fraco, os juros globais precisam estabilizar, o petróleo não pode alimentar novas pressões inflacionárias e o ruído político precisa permanecer contido.

Para a bolsa brasileira, a diferença importa. O mercado ainda pode se beneficiar de cortes de juros, entrada de capital estrangeiro e rotação para empresas domésticas. Mas, depois de não conseguir romper os 200 mil pontos e recuar para perto de 176 mil, a margem de segurança ficou menor. O Brasil continua no radar do BofA. A diferença é que já não parece uma aposta simples em fluxo e juros. Em um mês, o “novo ouro” virou um teste de resistência para o capital estrangeiro.


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