By Brazil Stock Guide – A Raízen (RAIZ4) publicou hoje a documentação completa do plano de recuperação extrajudicial, colocando uma decisão direta diante dos credores da companhia: escolher uma das opções de pagamento previstas na reestruturação ou ser automaticamente enquadrado na alternativa mais dura, que prevê deságio de 80% e pagamento em parcela única apenas em 31 de março de 2047.
A reestruturação envolve R$ 65,4 bilhões em dívidas, incluindo debêntures, certificados de recebíveis do agronegócio e outros créditos financeiros sujeitos ao plano. Desse total, cerca de R$ 12,1 bilhões estão ligados a debêntures e CRAs, papéis que em grande parte chegaram a investidores de varejo.
O ponto de atenção para o credor não está apenas no tamanho da dívida ou na conversão de parte dos créditos em ações. Está na mecânica de escolha. O plano completo estabelece que os credores sujeitos que não fizerem uma eleição válida, de acordo com os materiais de eleição, serão automaticamente tratados como credores da Opção B.
Essa opção prevê pagamento em dinheiro com desconto de 80% sobre o valor total do crédito sujeito à reestruturação. Em termos simples, um credor com R$ 100 mil a receber da Raízen que não fizer uma eleição válida poderia ser enquadrado nessa alternativa e passar a ter direito a receber R$ 20 mil, em parcela única, em 2047. O exemplo é apenas ilustrativo e não considera efeitos específicos de atualização, impostos, custos, juros acumulados, forma de representação do papel ou eventual pagamento antecipado.
A alternativa central do plano é a Opção A. Por ela, 55% da dívida total reestruturada seria transformada em novos instrumentos de dívida, alocados entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia. Os outros 45% seriam convertidos em units da companhia, formadas por uma ação ordinária e uma ação preferencial, ao preço de conversão de R$ 0,25 por ação.
No mesmo exemplo de R$ 100 mil, a Opção A significaria, de forma simplificada, manter R$ 55 mil em novos instrumentos de dívida e converter R$ 45 mil em units da Raízen. Essa escolha preserva alguma exposição ao eventual ganho de valor da companhia reestruturada, mas também deixa o credor exposto ao risco de execução do plano, à liquidez das ações e ao desempenho futuro da empresa.
Há ainda a Opção C, desenhada como uma saída limitada em caixa para credores menores. Ela prevê pagamento equivalente ao menor valor entre 75% do crédito ou R$9 .750, sujeito a um teto agregado de R$ 150 milhões. Se a demanda superar esse limite, a alocação será feita de forma progressiva, priorizando os menores créditos.
Outro cuidado é entender quem faz a escolha. O plano prevê que credores de debêntures nacionais podem realizar a eleição de forma individual e independente, direta ou por representante, desde que comuniquem previamente o agente fiduciário. Já no caso dos CRAs, a opção de pagamento será eleita pela securitizadora, de forma vinculante para os titulares dos papéis, conforme os instrumentos originais e a legislação aplicável.
A Shell também aparece como peça central da capitalização. O plano prevê aporte de R$ 3,5 bilhões no fechamento da transação, ao preço de R$ 0,25 por ação. Há ainda a possibilidade de aporte adicional de R$ 500 milhões por veículo ligado à Aguassanta, elevando o dinheiro novo dos acionistas para até R$ 4 bilhões.
Parte desses termos já havia aparecido no material de blowout divulgado em maio, incluindo a existência da Opção B, o desconto de 80% e o vencimento em 2047. A diferença agora é que o plano completo formaliza a consequência da inércia: quem não fizer uma eleição válida pode ser levado automaticamente para essa alternativa.
A estrutura cria uma forte indução econômica à adesão ativa. O credor que não agir não preserva sua posição original. Pelo contrário, pode ser deslocado para a opção com maior perda nominal e prazo mais longo.
Para a Raízen, o desenho aumenta a chance de organização do processo e reduz a dispersão entre credores. Para quem tem papéis da companhia, a mensagem é mais dura: a escolha da opção virou parte essencial da tentativa de recuperação do crédito.
O silêncio, neste caso, pode custar 80%.
