Moll e Pinheiro Dobram a Aposta na Saúde

<p>As famílias que construíram os dois modelos dominantes do setor voltam a colocar capital próprio na mesa.</p>

As famílias Moll e Pinheiro viraram símbolos da saúde privada brasileira no ciclo que atravessou a pandemia. A primeira consolidou a Rede D’Or como a grande plataforma integradora do setor. A segunda levou a Hapvida, nascida forte no Nordeste, a uma fusão ambiciosa com a NotreDame Intermédica para tentar replicar seu modelo verticalizado no Sudeste e no Sul.

Agora, as duas famílias voltaram ao mercado. Não apenas para comprar a queda de suas ações — de cerca de 15% na Rede D’Or e mais de 20% na Hapvida neste ano — mas para recomprar as duas teses de investimentos que moldaram a saúde privada brasileira.

Na Rede D’Or, os controladores compraram cerca de R$ 729 milhões em ações em maio e aproximadamente R$ 1,3 bilhão no ano. A companhia também concluiu uma recompra de R$ 539 milhões e aprovou um novo programa de até R$ 1 bilhão.

Na Hapvida, a mensagem é mais reveladora. A família Pinheiro comprou cerca de R$ 250 milhões em ações depois do tombo provocado por resultados fracos. Mais tarde, reforçou sua posição por meio de uma estrutura que inclui derivativos com liquidação física.

A composição acionária atualizada mostra o bloco Pinheiro com 50,2% do capital ex-tesouraria, ou 47,5% do capital total. Dentro desse número estão instrumentos equivalentes a 8% das ações ordinárias da companhia.

Em outras palavras, o movimento é evidente: se o mercado não compra a tese, o controlador compra.

A Rede D’Or é o modelo premium: hospitais de marca, ativos escassos, bom quadro médico, consolidação nacional e, depois da SulAmérica, uma ponte relevante com o consumidor de planos de saúde. A Hapvida é o outro extremo: verticalização, rede própria, tíquete mais baixo, escala massiva e controle da jornada do paciente.

Ambas prometeram resolver o mesmo problema: crescer em saúde sem ser esmagada pelo custo médico. Agora, ambas precisam provar que essa promessa ainda vale.

Na Rede D’Or, o teste parece mais financeiro do que existencial. O GIC, fundo soberano de Singapura, reduziu sua fatia de 17,7% para 12,75% e criou um overhang relevante no papel. A ação caiu, o múltiplo encolheu e o mercado passou a negociar a companhia como se o acionista vendedor fosse mais importante do que o ativo.

Na Hapvida, a mensagem é outra: o controlador ouviu o mercado, mas não pretende entregar o comando. A pressão da Squadra levou três nomes apoiados por minoritários ao conselho. Jorge Pinheiro deixou a presidência executiva e foi para a presidência do board. Luccas Adib assumiu a operação. A família preservou o controle, mas aceitou mais participação externa.

O mercado mudou justo quando o setor vinha apresentando uma recuperação firme. Durante anos, pagou caro por histórias de consolidação, escala e sinergia. Agora parece querer extrair mais caixa, exigir mais governança e um retorno maior sobre capital.

Na Rede D’Or, o cheque dos Moll tenta provar que o prêmio do modelo premium ainda faz sentido. Na Hapvida, o reforço dos Pinheiro compra tempo para reorganizar uma máquina verticalizada sob pressão. Controlador comprando ação não garante retorno, mas muda a conversa: as famílias voltaram a colocar capital próprio na mesa. O mercado irá exigir mais do caixa gerado pelas empresas.


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