By Brazil Stock Guide – A JBS (NYSE: JBS; B3: JBSS32) costuma ser analisada pelo mercado a partir de variáveis conhecidas: ciclo do gado nos Estados Unidos, margem no frango, exportações brasileiras, custo dos grãos, alavancagem e disciplina de capital. Mas relatórios recentes de bancos passaram a destacar uma camada menos óbvia da história: a proteína deixou de ser apenas uma commodity animal e virou também uma aposta em consumo, nutrição e conveniência.
A companhia continua sendo, antes de tudo, uma gigante global de carne bovina, frango e suínos. Essa base ainda define a maior parte de seu resultado. Mas os relatórios publicados após o encontro da empresa com investidores em Nova York nesta semana conectaram a JBS a tendências que vão além da proteína animal tradicional: alimentos high-protein, ovos, salmão, snacks, refeições prontas, bebidas proteicas, ingredientes funcionais, peptídeos bioativos e proteínas alternativas.
A mudança não elimina os ciclos. O boi americano segue pressionado, o frango ainda enfrenta excesso de oferta em alguns mercados e a geração de caixa continua central para a história. O que muda é o enquadramento. Em vez de olhar apenas para a quantidade de gado disponível ou para o preço do peito de frango, parte da discussão passa a considerar como a JBS pode capturar a demanda global por proteína em categorias de maior valor.
Essa demanda tem números relevantes. Em apresentação a investidores, a JBS citou estimativas de que o mercado de alimentos high-protein deve crescer cerca de 8% ao ano entre 2025 e 2034. A empresa também destacou a expectativa de mais de 20 milhões de usuários de medicamentos GLP-1 – as canetas emagrecedoras – nos Estados Unidos entre 2025 e 2030, com crescimento anual de 25%, um movimento que pode alterar hábitos alimentares e reforçar a busca por alimentos com maior densidade proteica.
A mesma apresentação mostra que as buscas por “high-protein” no Google nos Estados Unidos aumentaram oito vezes desde 2010, que 23% dos americanos seguem uma dieta rica em proteína e que 70% dizem tentar consumir proteína ativamente. Para a indústria de alimentos, proteína deixou de ser apenas um insumo ou uma categoria para virar uma linguagem de consumo.
Foi nesse contexto que os analistas deram atenção a áreas que, em outros ciclos, poderiam parecer laterais. O Itaú BBA, por exemplo, escreveu que a companhia apresentou “novas fronteiras em proteína além do portfólio tradicional”, destacando biotecnologia, proteínas alternativas e ingredientes cultivados voltados a categorias como barras de proteína, bebidas e suplementos.
Para os analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, do Itaú BBA, a JBS segue atenta à evolução dos hábitos de consumo e vem adaptando seu portfólio a novas demandas. O banco afirmou que a companhia se posiciona para capturar oportunidades fora do core tradicional, usando sua escala global para sustentar execução e diversificação.
O caso dos ovos é o exemplo mais concreto dessa nova camada. A Stephens, em relatório assinado por Pooran Sharma, descreveu a Mantiqueira como uma “plataforma global de crescimento”, com operações no Brasil e nos Estados Unidos, cerca de 30 milhões de aves de capacidade e posição entre os quatro maiores produtores globais de ovos.
Mas o ponto mais interessante não é apenas o ovo in natura. A Stephens destacou a exposição da plataforma a marcas e a inovação inicial em proteína funcional, incluindo o N.OVO, uma bebida à base de clara de ovo com 17 gramas de proteína, zero lactose e zero gordura. Para o banco, produtos de ovos de maior valor agregado podem ganhar relevância dentro da estratégia ao longo do tempo, ainda que o foco imediato siga na otimização da base existente e na avaliação de oportunidades de M&A.
O Morgan Stanley chegou a leitura semelhante. Para Ricardo Alves, Lucas Mussi e Henrique Morello, a joint venture da Mantiqueira adiciona “outra avenida de crescimento” para a JBS, com sinergias potenciais com negócios existentes e ventos favoráveis da tendência de proteína e saúde, incluindo ovos de marca e shakes proteicos à base de ovo.
Esse ponto ajuda a explicar por que ovos podem ter peso simbólico maior do que seu tamanho atual no grupo. A categoria combina proteína acessível, marca, recorrência de consumo e possibilidade de produtos funcionais. Em uma companhia historicamente associada a escala industrial e carne in natura, ovos e bebidas proteicas funcionam como ponte para uma história de maior valor agregado.
A biotecnologia segue a mesma lógica. A apresentação da JBS cita a GENU-IN, focada em peptídeos bioativos no Brasil; a JBS Biotech, com estrutura de pesquisa e planta piloto; e a BioTech Foods, na Espanha, voltada a proteínas alternativas. A empresa também menciona ingredientes funcionais e bioativos para suplementos, barras de proteína, bebidas, shakes e produtos nutricionais.
Ainda é uma frente pequena diante da escala consolidada da companhia, mas relevante para a narrativa de longo prazo. Ingredientes funcionais, proteínas alternativas e peptídeos bioativos não substituem carne bovina, frango ou suínos. Ampliam o mapa de onde a empresa pode buscar margem, crescimento e menor dependência dos ciclos tradicionais.
O BMO Capital Markets também destacou essa direção mais ampla. Andrew Strelzik escreveu que a administração discutiu iniciativas para apoiar uma estratégia de diversificação do portfólio “ao mesmo tempo em que limita a volatilidade de margens”. Para uma companhia exposta a ciclos, essa é uma parte essencial da história: a diversificação não serve apenas para crescer, mas para suavizar resultados.
Essa busca por menor volatilidade também aparece nos alimentos preparados. Na Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, a Stephens observou que o negócio continua migrando para áreas mais estáveis e de maior margem da cadeia de frango, como produtos case-ready, preparados, desossa, marcas e itens de valor agregado. O banco citou a Just Bare como o exemplo mais claro de conexão com o consumidor, com ganho de participação relevante em poucos anos, e a Fridge Raiders, no Reino Unido, como plataforma ligada ao consumo de snacks proteicos.
No Brasil, a Seara é a vitrine mais visível desse movimento. A unidade recebeu cerca de R$ 10 bilhões em investimentos entre 2021 e 2025, ampliou capacidade em aves, suínos e produtos de valor agregado, e avançou em categorias como pizzas congeladas, frios, pratos prontos, cortes de frango e linhas voltadas ao uso em air fryer.
Para o Itaú BBA, “marca forte e inovação” seguem impulsionando ganhos de participação da Seara. O banco destacou que a penetração da marca nos lares brasileiros subiu de 76% para 94% desde 2017, enquanto a repetição de compra avançou de 79% para 93%. A leitura é que a unidade deixou de ser apenas um ciclo de capex e passou a ser uma história de execução em marca, mix e margem.
O salmão também entrou nesse mapa de novas proteínas. Na Austrália, a JBS controla a Huon, posicionada no segmento premium. O Morgan Stanley observou que a operação australiana já tem um portfólio mais concentrado em valor agregado e marcas do que outras unidades da JBS, com Primo e Huon como exemplos. A apresentação da companhia cita planos de expansão da Huon, incluindo aumento da colheita para 46 mil toneladas por ano e investimentos em tecnologia de cultivo de salmão.
A Austrália tem outro papel na leitura dos analistas: mostrar como a JBS pode combinar proteína animal tradicional, marcas, exportação, premiumização e tecnologia. O negócio ainda é majoritariamente bovino, mas inclui preparados, cordeiro, suínos e salmão. Segundo o Morgan Stanley, cerca de um terço do portfólio australiano já está em produtos de marca ou valor agregado, proporção acima da estimada para outras operações da companhia.
O desafio é que ovos, salmão, bebidas proteicas e biotecnologia ainda são pequenos demais para mudar o lucro consolidado da JBS no curto prazo. A maior parte do Ebitda continuará vindo das grandes plataformas de carne bovina, frango, suínos e alimentos preparados. Em um ano pressionado como 2026, investidores seguirão olhando primeiro para geração de caixa, alavancagem, margem nos Estados Unidos e disciplina de capital.
A própria decisão da JBS de cortar US$ 400 milhões do capex deste ano mostra que a empresa precisa escolher com cuidado o ritmo de crescimento. Novas frentes de proteína ajudam a ampliar a história, mas também levantam uma questão prática: quais delas podem ganhar escala, quais ficarão como apostas de longo prazo e quanto capital será necessário para transformar inovação em Ebitda.
Ainda assim, a inclusão de ovos, salmão e biotecnologia na conversa é relevante. Ela indica que a próxima fase da indústria de proteína pode não ser apenas sobre produzir mais carne, mas sobre entregar proteína em mais formatos, com mais marca, mais conveniência, mais função nutricional e mais proximidade com o consumidor.
