Após o fim adiado, a leitura do Bradesco sobre o Brasil

<p>Fluxo global sustenta a Bolsa brasileira, mas volatilidade geopolítica pressiona inflação, alonga juros e torna o mercado mais seletivo.</p>

O fim do mundo parecia agendado — ao menos na retórica — para a noite de 7 de abril de 2026. A promessa de Donald Trump de um ataque ao Irã não se materializou. Em vez disso, veio uma pausa de duas semanas — suficiente para evitar o pior e, ironicamente, prolongar a incerteza. Em mercados, nada é mais desconfortável do que um desastre adiado.

Feita a ressalva, o diagnóstico de Bruno Boetger, vice-presidente do Bradesco responsável pelo banco de atacado, feito na tarde do mesmo dia em reunião promovida pelo Bradesco BBI com investidores, segue válido. O Brasil continua sendo beneficiário de um movimento maior, a realocação global de capital. O fluxo estrangeiro na B3 já soma cerca de R$54 bilhões no ano — aproximadamente 200% de todo o ingresso de 2025. O Ibovespa, que chegou à faixa de 190 mil pontos — um patamar que até recentemente parecia improvável — acumula alta próxima de 20%. A explicação é menos sofisticada do que parece: o tal fluxo de recursos diversificando fora dos EUA.

A guerra — ainda que suspensa — continua sendo a variável dominante, analisa Boetger. Seu efeito se transmite via commodities: petróleo mais alto pressiona a inflação, que por sua vez prolonga juros elevados. O corte de 25 pontos-base sinalizado pelo Copom foi visto como o início de um ciclo, mas sob condição. Se a tensão geopolítica escalar, o custo do dinheiro permanece alto por mais tempo. A pausa anunciada por Trump não resolve o problema; apenas o posterga. Curiosamente, riscos domésticos como a eleição seguem em segundo plano — ofuscados pela dinâmica global.

No mercado de capitais, a janela segue aberta — mas estreita. A estimativa do Bradesco é de cerca de 10 ofertas ao longo de 2026, somando aproximadamente R$15 bilhões, em linha com 2025. A composição importa: predominância de follow-ons, com IPOs grandes ainda ausentes. O banco não detalha nomes no pipeline. No mercado, porém, especula-se sobre possíveis operações relevantes no setor de saneamento. A demanda, quando existe, vem majoritariamente de fora — com participação estrangeira entre 50% e 60% nos livros recentes. Uma seletividade global.

O contraste com o investidor local é evidente. Com a Selic próxima de 15%, há migração para renda fixa e caixa por parte do investidor doméstico. Fundos registram captação líquida negativa de cerca de R$6 bilhões no ano, revertendo entradas de aproximadamente R$40 bilhões no período anterior, calcula Boetger. No crédito, o ajuste já começou: spreads abriram entre 30 e 70 pontos-base em diferentes segmentos, e o volume de emissões deve cair para cerca de R$550 bilhões em 2026, abaixo dos R$740 bilhões recordes do ano passado. O mercado, nas palavras de Boetger, “parou para reprecificar risco”.

A seletividade aparece também na alocação setorial. Segundo o executivo do Bradesco, crescimento, quando existe, está concentrado em infraestrutura — como portos e rodovias — além de energia e saneamento: setores menos dependentes do ciclo de consumo e mais ancorados em concessões e contratos de longo prazo. O equity ainda funciona, mas exige qualidade, visibilidade e aderência ao investidor internacional.

O ponto menos visível — e potencialmente mais relevante — está fora da Bolsa. O crédito costuma virar antes. O Brasil, hoje, negocia menos por seus próprios méritos e mais por sua posição relativa em um mundo instável. Funciona — enquanto o resto parece pior. O problema é que essa é uma vantagem que não depende do Brasil — e pode desaparecer na mesma velocidade com que entrou. Basta uma guerra em duas semanas.


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