As novas gerações deveriam ler sobre Alan Greenspan, que morreu aos 100 anos. Ele foi o banqueiro central mais influente da virada do século — e talvez o mais ambíguo. Durante quase duas décadas à frente do Federal Reserve, virou o “maestro” da economia americana: falava pouco, falava difícil, movia mercados com meias frases e parecia enxergar antes dos demais para onde iam inflação, crescimento e produtividade.
Sua reputação tinha fundamento. Greenspan assumiu o Fed em 1987, depois de Paul Volcker ter reconstruído a credibilidade monetária americana com o remédio duro dos juros altos. Herdou esse ativo institucional. Enfrentou o crash de 1987, a crise mexicana, a crise asiática, o colapso do LTCM e o choque do 11 de Setembro. Por anos, pareceu que o Fed havia aprendido a suavizar o ciclo econômico sem pagar o preço clássico de inflação mais alta.
Essa foi sua grandeza. Mas também sua armadilha.
Greenspan acertou ao perceber que tecnologia, globalização e produtividade permitiam à economia americana crescer mais sem inflação. Mas errou ao confiar demais na disciplina dos mercados financeiros. O mesmo banqueiro central que enxergou mudanças estruturais antes dos modelos não viu — ou não quis conter — os excessos que levariam à crise de 2008.
Esse é o ponto que interessa ao Brasil. Estabilidade de preços é condição necessária para uma economia funcionar. Mas não é condição suficiente para evitar crises — nem pode ser usada como argumento automático para normalizar uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Inflação baixa pode conviver com alavancagem alta, crédito mal distribuído, liquidez ilusória e bolhas em ativos. Também pode conviver com uma economia travada por tempo demais.
A lição para o Banco Central do Brasil não é usar a Selic para todos os problemas. Juros são uma ferramenta poderosa, mas grosseira. O BC também precisa olhar para o arsenal macroprudencial: capital, liquidez, provisões, limites de exposição, supervisão de crédito e riscos fora do debate tradicional — crédito privado, fundos, securitização, fintechs, derivativos, FIDCs e produtos que prometem liquidez diária contra ativos longos.
Mas o caso brasileiro vai além disso. A autonomia do Banco Central foi apresentada como avanço institucional. Talvez seja. Mas seu teste real não é apenas proteger a autoridade monetária da pressão do governo de turno. É também impedir que ela fique presa a outro tipo de pressão: a dos mercados financeiros.
Greenspan ajuda a iluminar esse risco. Um banco central pode ser independente da política eleita e, ainda assim, dependente de uma visão de mundo. Greenspan não precisava receber ordens de Wall Street para pensar como Wall Street. Sua fé na disciplina privada dos mercados era parte de sua formação intelectual, de sua rede de interlocutores e do ambiente que o celebrava como maestro. A captura mais perigosa, nesse caso, era ideológica.
No Brasil, a pergunta incômoda é se a autonomia protegeu o BC da política — ou se também ajudou a blindar uma determinada política monetária do debate democrático. Quando todo debate termina na curva de juros, no Focus, no prêmio de risco e na reação da Faria Lima, a questão deixa de ser apenas técnica. Passa a ser institucional: a quem o Banco Central presta contas?
Juros altos podem ser necessários em determinados momentos. Um país não pode tratar como normal uma política que remunera capital financeiro a taxas extraordinárias, encarece o crédito produtivo, comprime investimento e depois apresenta seus efeitos como simples consequência de uma função de reação neutra. Não existe política monetária socialmente neutra. Ela distribui custos e benefícios.
Essa talvez seja a lição mais brasileira de Greenspan. O problema não é ouvir o mercado. Seria irresponsável ignorar preços, curvas, expectativas e prêmios de risco. O problema é começar a pensar como ele. Greenspan construiu autoridade em parte porque entendia Wall Street. Mas seu legado foi reescrito quando ficou claro que Wall Street também havia entendido Greenspan. A crise de 2008 reescreveu seu legado: o “maestro” passou a ser lembrado também como o homem que não ouviu os ruídos crescentes na orquestra.
Para o Banco Central do Brasil, a conclusão não é simples. Independência pode proteger a política monetária da irresponsabilidade eleitoral. Mas também pode blindar escolhas distributivas profundas sob a aparência de técnica pura. O perigo não está apenas em ter um banco central poderoso. Está em acreditar que esse poder é neutro. A independência protege o Banco Central do governo. A democracia precisa protegê-lo da captura pelo mercado — e de si mesmo.
