Brasil Sem Fio

<p>O Brasil quer defender sua indústria têxtil da China — até perceber que ela ainda precisa da China.</p>

O Brasil encontrou uma forma original de fazer política industrial: reconhece que há dumping chinês, admite que a indústria doméstica sofre dano, aplica a tarifa — e, no mesmo movimento, suspende a cobrança para não machucar os importadores, as confecções, o varejo e, no fim da linha, o consumidor. É protecionismo com airbag. Serve para mostrar intenção, mas evita o impacto.

O caso dos insumos têxteis expõe uma contradição incômoda. Em fios de poliéster e malhas de poliéster, o Gecex, braço decisório da Camex em defesa comercial, aplicou direitos antidumping definitivos contra produtos chineses, mas suspendeu a exigibilidade por interesse público. No náilon, a disputa seguiu roteiro parecido: medida provisória, reação de importadores e empresas da cadeia, e posterior recuo por interesse público. O governo, em resumo, diz à indústria nacional: você tem razão. Mas talvez seja caro demais agir como se tivesse.

Didaticamente, o problema é simples. Basta puxar o fio. O fio vira malha. A malha vira roupa. A roupa vira margem no varejo. Se o fio importado fica caro, a confecção reclama. Se a malha importada fica cara, o varejo reclama. Se tudo fica caro, o consumidor reclama. E, quando todos reclamam ao mesmo tempo, o interesse público costuma descobrir que a defesa da indústria nacional é bonita no papel, mas cobra seu preço.

A ironia é que o Brasil ainda produz. Há malharias, confecções, marcas, varejo, empregos e alguma base industrial — são 183 unidades produtoras nacionais identificadas no caso das malhas de poliéster. O drama não é a ausência completa de fábrica. É pior: existe indústria suficiente para pedir proteção, mas não necessariamente suficiente para substituir a China com preço, escala, prazo e variedade.

Suspender o antidumping manda um recado devastador ao produtor nacional: invista, produza, contrate — desde que não fique caro demais para quem já se acostumou ao produto chinês. A política industrial quer reconstruir a fábrica, mas tem medo de desagradar o consumidor isento da taxa da blusinha.


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