Braskem II, uma nova era

<p>A volta da Petrobras à governança da Braskem recoloca a petroquímica no centro de uma pergunta maior: o Brasil ainda quer ter uma indústria química competitiva?</p>

A BASF foi por décadas um símbolo da industrialização alemã: engenharia, escala, integração e confiança quase religiosa na superioridade manufatureira europeia. A Dow cumpriu papel parecido nos Estados Unidos, como emblema de uma química apoiada em energia abundante, mercado profundo e poder tecnológico. Quando as duas passam a cortar custos, vender ativos, reduzir empregos e rever capacidade, o problema resulta na ausência de competitividade estrutural.

É um modelo que perdeu fôlego diante da competição chinesa. Nas últimas duas décadas, a China transformou a química em uma questão de estratégia nacional. Energia barata, financiamento, escala, proteção seletiva e coordenação industrial fazem parte do manual de instruções chinês. A Europa ficou cara. Os Estados Unidos ficaram mais seletivos. A petroquímica brasileira recuou em sua ambição.

Esse é o pano de fundo da Braskem. Nesta segunda-feira, dia 8, se confirmada a etapa esperada de transferência do controle da Novonor para a IG4 Capital, a maior petroquímica da América Latina deixará para trás um longo ciclo de indefinição societária. Mas o ponto central não é apenas trocar um acionista pressionado por dívidas por uma gestora com mandato de reestruturação. O desenho mais relevante é outro: a Petrobras volta ao centro da governança, com um acordo de acionistas que dá à estatal e ao novo controlador poder compartilhado sobre decisões estratégicas.

A possível volta da Petrobras ao campo petroquímico remete ao papel que a Petroquisa, sua subsidiária, teve na formação do setor nos anos 1970. “Talvez não exatamente como no passado, mas certamente como um dos protagonistas de um novo ciclo de desenvolvimento industrial para o Brasil”, escreveu João Luiz Zuñeda, sócio fundador da MaxiQuim. A frase importa porque evita a armadilha fácil entre estatização e mercado puro. O que está em jogo é coordenação.

A Braskem, portanto, não precisa virar uma estatal disfarçada. Precisa virar uma plataforma industrial viável. Isso exige gás competitivo, disciplina de capital, solução para passivos, previsibilidade regulatória e instrumentos de uma política pública ativa para preservar a produção local. Se a BASF representa uma Europa cara demais para competir e a Dow representa uma América que corta para proteger margem, a Braskem pode representar algo mais raro: uma tentativa de reconstruir uma indústria no país que ainda tem matéria-prima e demanda. A Braskem não precisa apenas de novo dono. Precisa de uma razão industrial para existir.


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