O boi brasileiro passou a porteira da China. Agora, tá fechada.

<p>A cota chinesa fez do 2T26 um trimestre brilhante para os frigoríficos. Também mostrou quem manda no preço.</p>

Nos primeiros dias de agosto, os frigoríficos brasileiros vão divulgar os resultados de um dos melhores trimestres recentes para a exportação de carne bovina. Será difícil criticar os números. As vendas externas de proteína chegaram a 794 mil toneladas no 2T26, alta de 13,2% em relação ao ano anterior. O preço médio em dólar subiu 23,1% em um ano. A receita externa avançou 39,4% na comparação anual, para US$ 5,1 bilhões.

A China foi a razão do brilho. No trimestre, respondeu por quase 60% das exportações brasileiras de carne bovina. Os embarques para o país cresceram 38% ante o 1T26, quase três vezes a alta do volume total. E os compradores chineses pagaram cerca de 10% a mais que outros destinos. É o tipo de número que costuma animar o mercado. Também é o tipo de número que deveria deixá-lo desconfortável.

O Brasil correu para vender antes que a porta do sistema de cotas da China se fechasse. Pequim criou uma salvaguarda para carne bovina, com uma cota anual de cerca de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil e uma tarifa adicional reportada de 55% sobre volumes acima do limite. Como a cota é consumida no desembaraço alfandegário na China, e não no embarque no Brasil, há um intervalo incômodo entre o sucesso comercial e a restrição oficial.

Esse intervalo explica o 2T26. A carne embarcada em abril, maio e junho ainda podia parecer venda corrente. Na prática, parte dela era demanda do segundo semestre sendo puxada para frente. Estimativas de mercado indicam uso comprometido de cerca de 94,5% da cota até 30 de junho, restando algo próximo de 60 mil toneladas para o ano. A porta, agora, praticamente se fechou.

Mas isso já é a história passada. A questão para os balanços não é se o 2T foi forte, mas saber se o 3T26 será repetível. A nova janela deve ser abrir em 2027, mas a produção será retomada em meados de setembro. Para os frigoríficos, há uma segunda camada. Uma China menos agressiva pode derrubar o preço do boi no Brasil. Isso ajuda margens. O custo do animal pesa mais no resultado do que o volume de exportação sugere. Se o boi cair rápido, a perda do prêmio chinês pode ser parcialmente compensada. Se cair devagar, o 3T vira uma armadilha: preço de venda menor antes de custo menor.

Esse é o verdadeiro teste dos balanços. Não será volume. Será spread — a distância entre o preço da carne vendida e o custo do boi comprado. O Brasil aprendeu, mais uma vez, a velha lição das commodities. Eficiência ajuda a ganhar mercado. Mas ganhar mercado não é o mesmo que ganhar poder. O produtor de baixo custo pode vender muito. O comprador dominante ainda pode definir quando, quanto e a que preço. No fim, a história é simples. O Brasil tem o boi. A China tem a cota. Entre os dois está a diferença entre vender muito e mandar no preço.


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