Dois preços no agro

<p>Plano Safra subsidia o risco; Fiagro o precifica. O clima pode decidir quem paga a diferença.</p>

O agronegócio brasileiro tem operado hoje com dois preços para o mesmo dinheiro — e isso explica quase tudo. De um lado está o Plano Safra: crédito com juros abaixo do mercado, viabilizado pelo Tesouro. Na safra 2024/25, o programa mobilizou cerca de R$ 475 bilhões em crédito rural, parte relevante com equalização de taxas. Na prática, o produtor paga menos do que o custo real do capital. A diferença não desaparece. Ela é absorvida pelo contribuinte.

Do outro lado está o Fiagro: capital de mercado, sem subsídio direto, em que o retorno precisa compensar o risco — inclusive o climático. Enquanto esses dois sistemas coexistirem, o grande produtor dificilmente migra de forma voluntária para o mercado. O dinheiro subsidiado custa menos porque parte da volatilidade fica fora da fazenda e dentro do orçamento público.

Esse arranjo funcionou por décadas. Ajudou a financiar a expansão agrícola, reduziu risco de crédito em um setor estratégico e deu previsibilidade a produtores expostos a preço internacional, câmbio, clima e logística ruim. Mas o modelo começa a mostrar a conta. Com juros elevados, a equalização ficou mais cara e mais visível. O sistema precisou de cerca de R$ 10 bilhões adicionais para sustentar o crédito rural diante de perdas e desequilíbrios na carteira, com impacto direto em instituições como o Banco do Brasil. Não é um colapso, mas tampouco é trivial.

A diferença mais relevante entre Plano Safra e Fiagro não está apenas no volume. Está na forma como cada um lida com o risco. O Plano Safra suaviza a volatilidade. O Fiagro a incorpora no retorno exigido pelo investidor. Ainda pequeno perto do crédito rural oficial — algo como R$ 35 bilhões a R$ 40 bilhões em estoque, com captações anuais bem inferiores ao tamanho do Plano Safra — o instrumento cresce sem depender diretamente do Tesouro. Mas ele não oferece almoço grátis.

O clima torna essa transição mais delicada. Seguro rural cobre parte das perdas, mas não elimina o problema. Sua penetração ainda é limitada, sua viabilidade depende de apoio público e sua eficácia diminui quando os eventos deixam de ser isolados. Secas, enchentes e quebras regionais amplas transformam risco individual em risco sistêmico. Para o Fiagro, isso cria um desafio de correlação: a carteira parece diversificada até o clima atingir vários devedores ao mesmo tempo.

É nesse ponto que a tese liberal encontra seu limite. O Fiagro pode financiar uma parte crescente do agro brasileiro, mas dificilmente vai substituir o Estado na cobertura dos riscos mais extremos. O grande produtor pode aceitar capital de mercado para expansão, securitização, recebíveis e operações específicas. Mas, quando o dinheiro subsidiado está disponível, ele continuará sendo preferido. O racional econômico é simples: se há duas fontes de capital, a mais barata vence.

O Fiagro não veio para acabar com o Plano Safra. Veio para expor seus limites. O crédito subsidiado deve continuar relevante, mas deveria ser mais seletivo: agricultura familiar, pequenos e médios produtores, transição climática, inovação, seguro e redução de risco estrutural. Já o grande produtor exportador, com escala e acesso a mercado, poderia depender menos da conta pública. O agro nunca será totalmente privado em termos de risco. O que está mudando é menos visível: o subsídio pode sair do contrato, mas dificilmente sai do sistema. E, nesse intervalo, o Estado paga a diferença.


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