A retomada da Fafen-BA pela Petrobras (PETR3, PETR4; PBR) recoloca uma velha pergunta em termos mais úteis: quanto vale produzir fertilizante no Brasil? A resposta não está no slogan da autossuficiência. Está na conta do gás. A unidade de Camaçari voltou a operar porque a companhia diz ter reduzido o custo de oportunidade do insumo que move a fábrica. Sem gás competitivo, ureia nacional vira política industrial cara. Com gás mais barato, pode virar hedge estratégico.
A distinção importa. A Petrobras não está prestes a resolver toda a dependência brasileira de fertilizantes. O país ainda importa cerca de 85% a 90% dos fertilizantes que consome, uma vulnerabilidade estrutural para um dos maiores exportadores agrícolas do mundo. O alvo da Petrobras é mais específico: fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia. A Fafen-BA pode produzir 1.300 toneladas de ureia por dia, o suficiente para atender cerca de 5% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados. Somada às unidades em Sergipe, Paraná e Mato Grosso do Sul, a Petrobras diz que poderá chegar a 35% da demanda brasileira por fertilizantes nitrogenados.
A melhor estimativa, já que o contrato de gás não é público, começa pelo volume associado à unidade baiana: cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de gás natural por dia. Isso equivale a aproximadamente 42 mil MMBtu diários. Num intervalo de US$ 6 a US$ 7 por MMBtu, a conta anual do gás ficaria entre US$ 93 milhões e US$ 108 milhões, ou algo como R$ 465 milhões a R$ 540 milhões. Após reajustes recentes do gás, essa faixa poderia se aproximar de R$ 550 milhões a R$ 650 milhões por ano. Não é pouco. Mas também não é a conta inteira do país.
O Brasil ganha muito mais com exportações agrícolas do que gastaria para manter uma fatia doméstica de produção de fertilizantes nitrogenados. Esse é o argumento sério por trás da política. Guerras, sanções, gargalos logísticos e choques na Ucrânia ou no Oriente Médio podem transformar rapidamente a dependência externa em inflação para o produtor rural. A produção local não elimina esse risco. Mas pode reduzir o preço do pânico.
O perigo é confundir seguro com subsídio permanente. Se o gás brasileiro ficar caro enquanto a ureia importada permanecer barata, a tese econômica enfraquece. Mas, em choques globais, gás caro também encarece a ureia produzida lá fora. Um gás a US$ 16 por MMBtu não é bom para a Fafen-BA. Mas também não é bom para seus concorrentes. É justamente nesses momentos que alguma capacidade doméstica pode funcionar como proteção parcial.
Se o gás permanecer competitivo, a Petrobras pode capturar valor em duas frentes: monetiza seu gás e protege uma cadeia que sustenta parte relevante das exportações brasileiras. O Brasil não precisa produzir todo o fertilizante que consome. Precisa produzir o suficiente para que o pânico global custe menos.
