Globo e o desafio da transformação

<p>De emissora de TV a plataforma, grupo recupera margens, mas ainda depende de fatores financeiros em meio à pressão das big techs.</p>

O grupo Globo já não é mais conhecido apenas como uma emissora de televisão. Ao longo da última década, a empresa se reorganizou como uma plataforma integrada, combinando TV aberta, canais pagos, streaming, portais digitais, jornais e mídia out-of-home. O objetivo é capturar audiência — e receita — em qualquer ponto da jornada do consumidor. Os números sugerem progresso. Após o choque da pandemia, que levou a operação ao prejuízo, a Globo voltou a gerar lucro relevante, próximo de R$2 bilhões em 2024 e cerca de R$1,5 bilhão em 2025.

A transformação é tangível. A integração iniciada em 2018 e a expansão do Globoplay permitiram à Globo oferecer alcance massivo com algum grau de segmentação — uma resposta à fragmentação da atenção. Nesse contexto, os jornais impressos seguem presentes, cumprindo um papel específico de formação da opinião pública. Eles não movem o ponteiro do lucro, mas elevam o valor do público de alta renda, reforçando a proposta comercial da Globo junto a anunciantes qualificados. Ao mesmo tempo, a televisão aberta segue como um dos principais mecanismos de concentração de audiência e publicidade (pública e privada) no país. Em 2025, o EBITDA cresceu 57%, indicando boa recuperação operacional. Ainda assim, o lucro líquido recuou, refletindo principalmente a redução das receitas financeiras que haviam impulsionado o resultado no ano anterior.

Esse descompasso ajuda a enquadrar a qualidade da rentabilidade. Em 2025, a Globo gerou cerca de R$17 bilhões em receita operacional, enquanto as receitas financeiras somaram aproximadamente R$1,8 bilhão, evidenciando um peso relevante na composição do resultado. A economia de atenção, por sua vez, tem sido capturada por plataformas globais com estruturas mais leves e maior alavancagem operacional. Empresas de streaming maduras operam com margens EBITDA acima de 20%, enquanto grandes plataformas digitais frequentemente superam 30%. A Globo, por sua vez, ainda se posiciona em torno de 13%, refletindo um modelo de produção intensiva de conteúdo. Nesse modelo, escala nem sempre se traduz em expansão de margem — embora mantenha uma vantagem relevante na capacidade de produzir e mobilizar conteúdo nacional em larga escala.

A Globo avança na reconstrução de margens operacionais e construiu um modelo mais robusto, com um balanço que oferece flexibilidade. Mas, em um ambiente de juros potencialmente mais baixos e competição crescente, a consistência da rentabilidade dependerá cada vez mais da competitividade da operação. A Globo pode já ser uma plataforma. A questão é se conseguirá transformar escala e relevância cultural em eficiência econômica — ou se continuará sendo um negócio de mídia com ambição de plataforma, mas retorno de mídia tradicional.


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