O Tesouro Nacional entrou no mercado doméstico de títulos nos últimos dias com força incomum, recomprando cerca de R$ 44 bilhões em papéis públicos — algo próximo de 0,6% da dívida total — para conter a disparada dos juros de longo prazo. Em um mercado que havia poucos compradores, isso foi suficiente para mover os preços. A intervenção, ao que parece, funcionou: a liquidez voltou e a curva de juros — referência central para o custo de financiamento na economia — deixou de se comportar como um ativo sem parâmetro. Mas o episódio diz menos sobre a capacidade do governo de estabilizar mercados e mais sobre o custo de um consenso excessivo.
Antes do choque recente, havia pouca dúvida sobre a direção dos juros no Brasil. Uma pesquisa do BTG Pactual com investidores mostrava um mercado amplamente alinhado: 88% esperavam que o Banco Central iniciasse o ciclo de cortes da Selic já nesta reunião, com a maioria projetando uma trajetória gradual de queda ao longo de 2026. A decisão será anunciada nesta quarta-feira, quando o Copom deve marcar o início — ou testar os limites — do fim do longo ciclo de juros elevados no país. O debate já não era se os juros cairiam, mas em que ritmo. O que antes parecia um corte potencial de 50 pontos-base rapidamente virou expectativa de 25 pontos-base. Quando o petróleo subiu, no contexto de uma guerra dos EUA-Israel contra o Irã, o cenário internacional se deteriorou — reforçando riscos inflacionários e forçando uma reavaliação das expectativas. O que era uma visão consensual virou risco concentrado.
A reprecificação foi rápida. Com posições montadas para a queda dos juros, a abertura da curva gerou perdas, forçou vendas e, em poucos dias, afastou compradores. Os preços caíram não apenas por novas informações, mas porque investidores precisavam sair. O mercado deixou de oferecer direção — e passou a não oferecer liquidez. Foi nesse momento que o Tesouro entrou, atuando como um grande comprador para evitar que uma disfunção técnica se transformasse em um choque financeiro mais amplo.
A intervenção levanta um dilema conhecido. Ao restaurar o funcionamento do mercado, o Tesouro reduz o risco de um aperto desordenado das condições financeiras — que, no Brasil, rapidamente se transmite para crédito, financiamento corporativo e atividade econômica. Mas, ao fazer isso, também suaviza as consequências de posições excessivamente consensuais. O risco não desaparece — torna-se mais administrável, com o Tesouro atuando temporariamente como estabilizador da ponta longa da curva de juros.
Não houve resgate no sentido clássico. Investidores ainda carregam perdas, e o cenário macroeconômico permanece mais incerto, especialmente dada a sensibilidade do Brasil aos preços globais de commodities. O que mudou foi a velocidade com que essas perdas poderiam se materializar. A intervenção não corrigiu o erro. Apenas evitou que ele fosse liquidado a qualquer preço.
O pânico passou. A incerteza permanece.
