Os mercados de previsão gostam de falar a língua das finanças: probabilidades, contratos de evento, descoberta de preço, inteligência coletiva. A promessa é transformar incerteza em sinal negociável.
Para o Brasil, ainda lidando com a ressaca das bets, essa narrativa deveria soar menos como inovação e mais como alerta.
A Kalshi já tentou se apresentar ao investidor brasileiro por meio de uma parceria com a XP International. A tese seria atrair investidores que negociem eventos econômicos, políticos ou financeiros como se fossem uma nova classe de ativos. Em mercados bem regulados, há mérito nisso. Um contrato sobre inflação, juros ou eleições pode produzir informação útil.
Mas a fronteira entre mercado e aposta é frágil. A investigação do Wall Street Journal sobre a Polymarket mostrou o lado menos nobre desse negócio: criadores pagos para simular apostas, vitórias falsas e vídeos desenhados para viralizar, muitas vezes sem transparência adequada sobre o patrocínio. O produto que se vendia como inteligência coletiva aparecia nas redes como cassino digital com estética de TikTok.
O Brasil conhece esse roteiro. As bets chegaram com discurso de entretenimento, tecnologia e formalização. Em poucos anos, tomaram o futebol, a publicidade, os influenciadores e os meios de pagamento. Só depois vieram a preocupação com endividamento, vício, lavagem de dinheiro e plataformas ilegais.
Prediction markets dirão que são diferentes. Às vezes são. Um contrato financeiro negociado por investidores qualificados pode ser regulado como derivativo. Mas uma aposta sobre eleição, reality show, celebridade ou esporte, empurrada ao varejo por influenciadores e promessas de ganho fácil, é apenas bet com outro nome.
Essa distinção deveria guiar o regulador brasileiro. Se parece produto financeiro, que venha com padronização, supervisão, regras de conduta e controle contra manipulação. Se se comporta como aposta, deve seguir as regras das apostas. E se usa ganhos simulados ou publicidade disfarçada, deveria ser tratado como sinal vermelho.
O erro das bets foi deixar o mercado crescer antes de a regra existir. Depois que clubes, fintechs, influenciadores e consumidores já estavam capturados, a regulação virou faxina. O Brasil não precisa repetir o experimento.
Mercados de previsão podem ter valor. Mas não quando chegam embalados por dopamina, viralização e promessa de dinheiro fácil. Se querem ser um mercado de informação, que aceitem a disciplina de mercado financeiro. Se vendem a emoção de cassino, o Brasil deve tratá-los como risco – não como novidade.
