O Cipriani 25 Broadway, em Nova York, foi mais do que o endereço de um encontro empresarial na última segunda-feira, 11 de maio. Foi uma sala de poder. No espaço de eventos de luxo instalado no histórico Cunard Building, em plena Brazil Week — a semana de encontros empresariais que cerca o tradicional prêmio Person of the Year — parte do futuro econômico do Brasil parecia ser discutida longe do Brasil, em uma corte informal do capitalismo americano.
No centro estava Donald Trump Jr., filho mais velho e herdeiro do capital empresarial e político de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ao lado de Wesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG Pactual. Em tons diferentes, os três defenderam uma aproximação maior entre Brasil e Estados Unidos em meio à disputa global com a China. A imagem foi sintomática: a elite empresarial brasileira parecia endossar não uma estratégia nacional autônoma, mas uma nova forma de acoplamento aos interesses de Washington.
Trump Jr. apresentou a tese americana em sua formulação mais direta. Cadeias globais de produção teriam sido capturadas por países que não compartilham os valores dos EUA, e o Brasil surgiria como aliado natural em mineração, agronegócio e recursos estratégicos. O vocabulário é o do friendshoring. A tradução, para uma economia periférica, pode ser menos nobre: fornecer minério, proteína, grãos, energia e terras raras para a potência que tenta reorganizar sua esfera de influência diante da ascensão chinesa.
A adesão de Wesley Batista e André Esteves é o dado político da cena. Um representa um dos grupos empresariais brasileiros mais internacionalizados, construído sobre proteína animal, escala global e forte presença nos Estados Unidos. O outro lidera uma das casas financeiras brasileiras mais ativas da atualidade, acostumada a transformar deslocamentos de capital, privatizações, infraestrutura e commodities em tese de investimento. Ambos falam a língua do mercado global. Nenhum deles, porém, fala a partir de uma economia central.
Esse é o incômodo. A elite brasileira é mais global, financeira e móvel do que o país que a sustenta. Pode morar nos EUA, captar em dólares, operar com fundos internacionais e circular nos mesmos ambientes da elite política e empresarial americana. Mas a base econômica brasileira continua entrando na equação como fornecedora de baixo custo. A sofisticação da elite não elimina a posição periférica da estrutura produtiva.
Há algo de antigo nessa cena travestida de novidade. O Brasil já foi mais dependente dos Estados Unidos no passado, antes de a China se tornar seu principal parceiro comercial e redesenhar o destino externo de minério, soja, petróleo, carne e celulose. O que apareceu em Nova York não foi uma ruptura histórica. Foi quase uma restauração: o desejo de troca de uma dependência por outra, agora apresentada como pragmatismo geopolítico.
A crítica não exige nostalgia chinesa nem simpatia por Pequim. O Brasil já é, em larga medida, uma plataforma de commodities para a China. O que se ofereceu em Nova York foi menos uma alternativa de desenvolvimento e mais uma proposta de troca de destino. Em vez de vender a mesma cesta primária para a China, vender mais dela aos Estados Unidos. Em vez de dependência asiática, dependência hemisférica. Em vez de autonomia, alinhamento.
A alternativa não é trocar Pequim por Washington nem fingir que Brasília arbitra a ordem global. Economias periféricas não comandam o jogo entre potências, mas podem negociar melhor sua posição nele. O Brasil tem alimentos, minério, energia, petróleo e minerais críticos. Isso deveria ser poder de barganha, não vocação para dependência. O problema começa quando a elite trata alinhamento externo como estratégia nacional, e não como uma transação a ser cobrada caro.
A tese de curto prazo pode ser lucrativa. Frigoríficos, mineradoras, energia, logística e bancos de investimento sabem monetizar realinhamentos geopolíticos. Mas há uma diferença entre capturar spreads e construir desenvolvimento. O Brasil pode ganhar fluxo, prêmio tático e manchetes sobre oportunidade estratégica. Também pode terminar apenas mudando a bandeira do comprador final, sem subir na cadeia de valor.
Muda a bandeira no destino sem mudar o lugar do país na cadeia. Esse é o risco central. O Brasil quer ser indispensável, mas parece aceitar ser um instrumento. A disputa entre EUA e China abre uma janela real para o país. Sem indústria, tecnologia, coordenação estatal, defesa de interesse nacional e capacidade de capturar mais valor nas cadeias produtivas, essa janela vira apenas mais um balcão de exportação.
O encontro em Nova York expôs essa ambiguidade. Para Washington, o Brasil é útil. Para a elite brasileira, o alinhamento pode ser rentável. Para o país, a pergunta é mais dura: será parceiro estratégico ou apenas fornecedor premium da potência da vez?
