By Brazil Stock Guide – A Amil liderou o ranking de ganho líquido de beneficiários entre as grandes operadoras de planos de saúde em março, em um mês que trouxe alívio para o setor, mas não apagou a leitura mais cautelosa do primeiro trimestre. Segundo dados da ANS compilados pelo BTG Pactual, a indústria adicionou cerca de 79 mil vidas em março, depois de um começo de ano fraco, mas ainda encerrou o 1T26 com perda líquida de aproximadamente 32 mil beneficiários.
A fotografia de março, portanto, é melhor do que a do trimestre. Mas ela não sugere uma recuperação homogênea. O que os números mostram é uma redistribuição competitiva: algumas operadoras voltaram a ganhar escala em praças relevantes, enquanto outras continuaram perdendo vidas ou mostrando dificuldade de preservar carteira.
O próprio BTG resumiu o dado como um forte fotografia no mês, com Amil e Bradsaúde entre os destaques. A leitura do banco foi com clara diferenciação entre os principais grupos. Entre as grandes operadoras, Amil, Bradsaúde e SulAmérica concentraram os melhores desempenhos do mês, enquanto Porto Saúde, Central Unimed e Assim ficaram na ponta negativa.

A Amil adicionou 34.936 vidas em março, ficando no topo do ranking mensal. O avanço foi puxado principalmente por São Paulo e Rio de Janeiro, dois mercados centrais para o setor por combinarem maior densidade corporativa, tíquete mais elevado e redes assistenciais mais disputadas. No trimestre, a operadora acumulou ganho de cerca de 66 mil vidas, reforçando a percepção de que sua base comercial voltou a ganhar tração após anos de ajustes.
A segunda posição em março ficou com a Bradsaúde, nova marca associada à antiga Bradesco Saúde, com 26.939 vidas líquidas adicionadas. No acumulado do trimestre, porém, ela foi a principal vencedora entre os grandes players, com aproximadamente 86 mil beneficiários líquidos. Para o BTG, a Bradsaúde entregou o trimestre mais forte entre as maiores operadoras, inclusive acima dos números oficialmente reportados pelo grupo.
Esse ponto é relevante porque a tese da Bradsaúde não se limita ao ganho mensal de vidas. O ativo combina uma base relevante em planos corporativos, distribuição bancária, marca forte e potencial de integração com uma plataforma de saúde mais ampla. O BTG afirma que vê Bradsaúde como uma ponto de entrada atrativa em uma plataforma escalável de saúde, com potencial de reprecificação à medida que ativos hospitalares amadureçam, a alocação de capital melhore e novas iniciativas de crescimento avancem.
Rede e escala
A SulAmérica, parte do ecossistema da Rede D’Or (RDOR3), ficou em terceiro lugar em março, com 25.453 vidas adicionadas. No trimestre, o ganho foi de cerca de 17 mil beneficiários. A leitura é positiva, mas precisa ser qualificada: não se trata apenas de crescer base, mas de crescer em regiões onde rede, tíquete e sinistralidade podem ter impacto mais direto na rentabilidade.
O BTG afirma que a companhia segue entregando execução consistente nos segmentos hospitalar e de seguros, com melhora de rentabilidade e várias avenidas de crescimento, incluindo a joint venture com Bradesco e potenciais oportunidades de M&A.
Hapvida (HAPV3) aparece em quarto lugar no ranking mensal, com 21.739 vidas adicionadas em março. O número é relevante porque marca uma recuperação no mês, especialmente no Rio de Janeiro. Mas a leitura de investimento segue mais ambígua: no trimestre, a companhia ainda perdeu cerca de 35 mil vidas. Segundo o BTG, a recuperação mensal foi compensada por perdas continuadas em São Paulo e Pernambuco.
Para Hapvida, isso importa mais do que para outros players porque seu modelo depende fortemente de escala, verticalização e ocupação da rede própria. Ganhar vidas no Rio ajuda, mas perder base em São Paulo — mercado de grande peso econômico — limita a leitura positiva. O dado de março reduz a pressão, mas ainda não confirma uma virada operacional.
A ponta fraca
Depois dos quatro maiores ganhadores, o ranking mostra ganhos menores em Unimed Seguros, com 7.675 vidas, Prevent Senior, com 741, e Athena, com 612. A partir daí, o saldo fica negativo: Omint perdeu 1.302 vidas, Central Unimed perdeu 14.667, Porto Saúde perdeu 17.856 e Assim perdeu 20.374.
Porto Saúde merece atenção especial porque vinha sendo observada como uma plataforma de crescimento no segmento de saúde. A perda de quase 18 mil vidas em março e o fechamento negativo do trimestre sugerem que a expansão da carteira ficou mais difícil em um mercado no qual reajustes, retenção de clientes e controle de sinistralidade passaram a pesar mais do que crescimento bruto.
O contraste com Amil e Bradsaúde ajuda a entender o momento do setor. O mercado não está simplesmente crescendo para todos. Ele está premiando operadoras com distribuição, escala comercial, presença em clientes corporativos e capacidade de defender carteira em praças mais rentáveis. Ao mesmo tempo, penaliza modelos que enfrentam perda de base, churn elevado ou menor capacidade de repassar preço.
O que o dado não mostra
O ranking de vidas é importante, mas não deve ser lido como sinônimo automático de melhora operacional. Em planos de saúde, crescimento de beneficiários pode ser bom ou ruim, dependendo do mix da carteira. Uma operadora pode ganhar vidas com menor tíquete, maior sinistralidade ou contratos menos rentáveis. Também pode perder vidas pouco rentáveis e, ainda assim, melhorar margem.
Por isso, a leitura correta de março é que o setor deu um sinal de recomposição, mas a qualidade dessa recomposição ainda precisa ser testada nos resultados. Os próximos indicadores decisivos serão tíquete médio, reajustes corporativos, sinistralidade, churn, inadimplência e evolução da margem médica.
