A vingança cultural da Avenida Paulista

<p>Os bancos abandonaram o seu endereço mais famoso de São Paulo; e agora voltam, em forma de museus.</p>

Por Rodrigo Uchoa, especial para o Brazil Stock Guide

Num domingo qualquer, quando a Avenida Paulista fecha para carros e abre para gente, é difícil imaginar que aquele rio de ciclistas, músicos de rua e famílias com cachorro já foi o lugar mais solene do Brasil. Inaugurada em 1891 como passarela dos barões do café, que ali ergueram mansões ecléticas para escapar do calor do centro, a avenida viveu sua segunda encarnação a partir dos anos 1960, quando os casarões caíram para dar lugar a torres de bancos. Por três décadas, a Paulista foi sinônimo de capital, no duplo sentido. Era ali que o dinheiro do país acordava cedo.

Até que o dinheiro se mudou. A partir dos anos 1990, as sedes financeiras migraram alguns quilômetros dali, para a Avenida Brigadeiro Faria Lima, uma Canary Wharf tropical, com torres espelhadas, muita gente com coletinhos e andando de patinete elétrico, numa fauna própria que a cidade apelidou de “farialimers”.

A Paulista, viúva de seus banqueiros, poderia ter definhado, mas fez o contrário, transformando-se numa avenida de uso comum mais democrático. E, agora, ela se consolida numa terceira encarnação: a de maior corredor cultural da América do Sul. A ironia é que parte relevante dessa metamorfose é financiada justamente pelos bancos que trocaram a Paulista pela Faria Lima.

O exemplo mais recente é o mais sintomático. O Nubank, fintech nascida digital e avaliada em dezenas de bilhões de dólares, anunciou para agosto a abertura do Nubank Arte Lab, no primeiro piso do Conjunto Nacional, um “quarteirão vertical” modernista que é a alma comercial da avenida. Serão 2.700 m² de salas imersivas, com parede de LED de dez metros, teto espelhado e projeto do escritório Jacobsen Arquitetura.

A mostra de estreia, “O Mundo de Tarsila”, promete ser a maior experiência imersiva já dedicada a Tarsila do Amaral, abrindo as celebrações dos 140 anos da pintora que deu rosto ao modernismo brasileiro. Detalhe revelador dos novos tempos: o banco não construiu o espaço, apenas comprou os naming rights, como quem batiza um estádio.

Dias antes, o Itaú, maior banco privado do país, dono hoje do prédio mais caro da Faria Lima, anunciou que o Itaú Cultural, há três décadas no número 149 da Paulista, ganhará um prédio novo no número 1.267, ao lado da pirâmide da Fiesp. O centro cultural vertical de 19 andares, desenhado pelo Estúdio Módulo e orçado em R$ 340 milhões (sem leis de incentivo, faz questão de frisar a Fundação Itaú), tem entrega prevista para 2031. O térreo será uma praça aberta, sem catracas, pavimentada de pedra portuguesa, como uma extensão da calçada.

A poucos quarteirões dali, o Instituto Moreira Salles, criado pela família fundadora do Unibanco (hoje parte do Itaú), já provou que a fórmula funciona: desde 2017, sua caixa elevada de vidro e concreto, dos arquitetos Andrade Morettin, virou ponto de peregrinação para amantes de fotografia.

Tudo isso orbita o astro original: o MASP, fundado em 1947 pelo magnata da imprensa Assis Chateaubriand, cujo vão livre suspenso projetado por Lina Bo Bardi escandalizou e encantou a cidade em 1968. Em março de 2025, o museu dobrou de tamanho com o anexo Pietro Maria Bardi, torre de 14 andares vestida de metal perfurado, ligada ao prédio histórico por um túnel. O financiamento reuniu alguns dos nomes mais influentes do empresariado e do sistema financeiro brasileiro, incluindo famílias ligadas ao Itaú Unibanco, como Setubal e Bracher; ao BTG Pactual, como os Esteves; à Porto, como os Garfinkel; e ao Bradesco, como os Aguiar, entre outros doadores privados.

Ainda na avenida, somem-se a Japan House, projeto do japonês Kengo Kuma, mais a Casa das Rosas, mais o Sesc e mais o Centro Cultural Fiesp, de exposições gratuitas e fila constante, e o corredor está completo. Hoje é possível atravessar os 2,8 km da avenida pulando de museu em museu como quem pula de pedra em pedra num rio.

Por que bancos fazem isso? A pergunta tem 600 anos. Os Médici, banqueiros de Florença, já sabiam que financiar Botticelli lavava os pecados da usura, então condenada pela Igreja. O mecenato compra o que o balanço não registra: legitimidade social, legado familiar, e a doce alquimia de associar uma marca à identidade nacional. Há também, claro, a aritmética terrena dos incentivos fiscais.

O fenômeno é global: o Deutsche Bank manteve por 15 anos um Guggenheim próprio em Berlim, depois rebatizado Deutsche Bank KunstHalle; o JPMorgan Chase administra uma coleção corporativa de dezenas de milhares de obras, iniciada por David Rockefeller nos anos 1950. Na França, a Fundação Louis Vuitton, de Bernard Arnault, e a Bolsa de Comércio, transformada por François Pinault em vitrine de sua coleção, já foram criticadas por trocar generosos abatimentos fiscais e concessões públicas por monumentos ao gosto de seus fundadores.

E às vezes o verniz racha. São Paulo conhece bem o caso: Edemar Cid Ferreira, dono do Banco Santos, presidiu a Bienal de São Paulo nos anos 1990, bancou a megalomaníaca Mostra do Redescobrimento em 2000 e acumulou uma coleção de milhares de obras. Até que, em 2004, seu banco desabou como castelo de cartas. A coleção foi apreendida pela Justiça e parou sob custódia do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Pode-se dizer que, no mínimo, foi um episódio incômodo a manchar a aura buscada pelos mecenas.

Mas talvez o veredicto final não pertença aos banqueiros, e sim a quem caminha pela avenida. Para o paulistano e para os milhões de turistas que ali desembarcam, pouco importa se o motor é vaidade, marketing ou genuíno amor à arte: o resultado é um corredor de cultura acessível, boa parte dela gratuita, no espaço mais público da maior cidade do hemisfério sul.

Há algo de poético no desfecho. Em agosto, os “Operários” de Tarsila, aquela parede composta dos rostos que construíram São Paulo, serão projetados em 360 graus no coração da avenida que os bancos abandonaram. O capital foi para a Faria Lima. A Paulista ficou com a sua melhor herança.

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