By Brazil Stock Guide – A Braskem SA (B3: BRKM5; NYSE: BAK) entrou numa fase decisiva de sua reestruturação financeira ao iniciar mediação com credores e pedir proteção judicial em São Paulo, numa corrida para renegociar sua estrutura de capital antes de enfrentar US$ 3,69 bilhões em serviço de dívida — cerca de R$ 20,3 bilhões — até o fim de 2027.
A maior petroquímica da América Latina também abriu os documentos antes confidenciais enviados a um grupo ad hoc de credores. Os materiais revelam uma proposta baseada no alongamento de vencimentos, sem corte de principal, sem conversão de dívida em ações e sem captação imediata de novo dinheiro. A Braskem disse que fornecedores, clientes e demais obrigações comerciais ficam fora do processo.
A companhia afirmou que “segue totalmente comprometida em continuar as discussões com os seus credores financeiros em busca de uma solução consensual, estruturante e ordenada para sua estrutura de capital.”
A reestruturação ocorre poucas semanas depois de a Braskem mudar de comando. A gestora IG4 Capital substituiu a Novonor como co-controladora da companhia, ao lado da Petrobras (B3: PETR4; NYSE: PBR), e herdou um dos balanços mais complexos da indústria petroquímica global. A renegociação da dívida tornou-se o primeiro grande teste do novo bloco de controle.
A dívida vence antes da recuperação do ciclo
A reestruturação é uma questão de tempo. Segundo os documentos, a Braskem projeta US$ 3,686 bilhões em serviço de dívida entre julho de 2026 e dezembro de 2027. Desse total, cerca de US$ 1,646 bilhão está ligado a dívidas bilaterais e agências de crédito à exportação. Outros US$ 1,274 bilhão vêm de linhas de capital de giro. Bonds, debêntures e CRAs somam US$ 766 milhões.
A pressão começa rápido. Só no terceiro trimestre de 2026, o serviço de dívida chega a US$ 878 milhões. O montante inclui US$ 572 milhões em linhas de capital de giro, US$ 188 milhões em bonds e debêntures, e US$ 118 milhões em dívidas bilaterais e de crédito à exportação.
O maior vencimento aparece em janeiro de 2028, quando cerca de US$ 1,33 bilhão vence, em grande parte ligado ao bond de 2028 da Braskem.
Para evitar esse precipício de refinanciamento, a companhia pediu tutela cautelar enquanto conduz uma mediação perante a Câmara Wind de Mediação. O pedido foi protocolado na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital de São Paulo.
Sem haircut, sem conversão em ações
A proposta da Braskem foge do roteiro clássico de reestruturações mais duras. A administração pede que os credores apoiem uma recuperação extrajudicial sob a lei brasileira, com tratamento igualitário entre credores financeiros sem garantia. A empresa também propõe manter as principais linhas de capital de giro, evitar garantias adicionais sobre ativos fixos, preservar o status unsecured das dívidas e implementar a transação sem haircut, sem conversão de dívida em ações e sem aporte imediato de capital.
A estrutura importa para todos os lados. Os acionistas evitam diluição imediata. Bancos e bondholders preservam o valor de face de seus créditos. Em troca, os credores seriam chamados a dar mais tempo à companhia, apostando numa melhora do ciclo petroquímico global. Esse é o argumento central da Braskem.
A administração tenta convencer credores de que a empresa enfrenta um descasamento de vencimentos, e não um problema estrutural de operação. As projeções internas assumem recuperação gradual dos spreads petroquímicos até 2035, com alta de EBITDA, avanço de margens e melhora de geração de caixa. A receita líquida sairia de US$ 12,3 bilhões em 2025 para US$ 20,7 bilhões em 2035. O EBITDA subiria de US$ 500 milhões para US$ 3 bilhões no mesmo período.
A própria Braskem, porém, alerta que essas projeções não são guidance. Elas foram preparadas exclusivamente para as conversas de reestruturação e dependem de premissas sobre spreads, preços de matérias-primas, custos, taxas de utilização e condições de mercado.
O plano também inclui cerca de US$ 900 milhões em investimentos estratégicos entre 2026 e 2030, sobretudo ligados ao projeto Transforma Rio. O projeto deve adicionar 220 mil toneladas anuais de capacidade de etileno a partir de 2029.
Credores ainda não compraram a tese
Os documentos divulgados também mostram que as conversas foram difíceis. Braskem e credores assinaram acordos de confidencialidade em 11 de junho. Depois disso, trocaram propostas de reestruturação e realizaram reuniões presenciais. A companhia pediu que os credores priorizassem a negociação sob a proteção de uma recuperação extrajudicial e solicitou uma resposta rápida.
Segundo a Braskem, os credores responderam seis dias úteis depois, com termos considerados inaceitáveis pela companhia. A administração rejeitou a proposta. Isso deixa a negociação em uma fase crítica.
A Braskem quer uma reestruturação ordenada, capaz de preservar operações e valor para acionistas. Os credores, por outro lado, podem exigir proteções mais fortes, remuneração maior ou garantias adicionais antes de aceitar o alongamento dos vencimentos.
Por enquanto, a principal beneficiada é a própria companhia, que ganha tempo para negociar. Fornecedores e clientes também são preservados, já que seus contratos ficam fora do processo.
A maior incerteza recai sobre os credores financeiros. Eles precisam decidir se alongar vencimentos cria mais valor no longo prazo do que exigir uma reestruturação mais agressiva agora, enquanto a indústria petroquímica global segue sob pressão.
O desfecho definirá não apenas o futuro financeiro da Braskem. Também será a primeira grande decisão estratégica sob o novo controle compartilhado por IG4 Capital e Petrobras.
