BTG recomenda Ambev após 13 anos e aponta fraqueza da Heineken

<p>Banco eleva preço-alvo da cervejaria para R$20 e diz que o portfólio premium da dona de Brahma, Skol e Corona voltou a dar poder de preço à companhia.</p>

By Brazil Stock Guide – O BTG Pactual voltou a recomendar compra para a Ambev (ABEV3) após mais de uma década de cautela com a ação, em uma das mudanças de tese mais simbólicas no setor brasileiro de consumo. “Treze anos depois, estamos elevando a Ambev para compra”, escreveram os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, em relatório no qual o banco elevou o preço-alvo da cervejaria para R$20, ante R$17.

A virada é forte porque não depende de uma volta milagrosa do consumo de cerveja no Brasil. O argumento do BTG é mais direto: a Ambev voltou a recuperar a variável que sempre sustentou sua criação de valor — poder de preço. “Não fazemos isso de forma leviana”, escreveram os analistas, ao reconhecer que a postura cautelosa com a ação foi uma das recomendações mais consistentes do banco nos últimos anos.

Fadiga verde

Para o BTG Pactual, a cervejaria holandesa Heineken ainda tem uma marca poderosa, mas seu ciclo de crescimento no Brasil começa a mostrar sinais de maturidade. A marca verde segue aspiracional, mas o banco vê uma fragilidade estrutural fora do eixo Heineken-Amstel: um portfólio estreito demais para disputar todas as faixas de preço, canais e ocasiões de consumo.

A Ambev, por outro lado, passou a jogar com uma prateleira mais granular, indo do core de cerveja com as marcas de combate ao portfólio premium, o que inclui desde Brahma, Skol, Budweiser, Spaten, Corona, Stella, Beck’s, Bohemia e novas versões sem álcool, low calorie ou sem glúten. “O portfólio é o fosso competitivo que a concorrência não tem”, disseram os analistas. Em um ano de Copa do Mundo, a Ambev não precisa apenas vender mais litros, mas tem condições de capturar mais reais por litro.

Preço manda

Segundo o BTG, a cervejaria, controlada pelo trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Sicupira, ainda tem cerca de 50% de participação no premium, abaixo dos cerca de 70% que detém no segmento core. Essa diferença abre espaço para ganho de mix, preço médio maior e recuperação de participação em receita — exatamente o tipo de melhora que, em cerveja, costuma valer mais do que simples crescimento de volume.

O banco estima que a Ambev possa capturar ganho real de preço de 1,4 ponto percentual ao ano no segmento de cerveja no Brasil nos próximos anos. Esse ponto é crucial porque preço entra no resultado com pouco capital adicional. “A tese de preço e a tese de ROIC são a mesma tese”, escreveram os analistas, em referência ao retorno sobre o capital investido.

Máquina reparada

O BTG projeta receita consolidada de R$92,5 bilhões em 2026, EBITDA de R$31,1 bilhões e lucro líquido de R$16,1 bilhões. Para 2028, as estimativas sobem para receita de R$105,3 bilhões, EBITDA de R$34,7 bilhões e lucro líquido de R$18,5 bilhões. O retorno sobre o capital investido, que estava em 30,6% em 2025, chegaria a 37% em 2028.

A leitura mais contundente do relatório é que a Ambev deixou de ser apenas uma ação defensiva de dividendos e voltou a ter uma história de criação de valor. “A máquina está reparada”, escreveram os analistas. O banco não está dizendo que a empresa voltará à era dourada dos anos 2000, nem que o mercado brasileiro de cerveja terá uma explosão de volumes. A aposta é mais disciplinada: em um mercado maduro, a cervejaria pode voltar a criar valor se preservar participação, elevar preço médio e usar o portfólio como barreira competitiva.

Há riscos. O consumo de cerveja no Brasil cresce pouco, a Heineken segue relevante e a inflação de custos pode pressionar margens. Ainda assim, o BTG vê a relação risco-retorno mais favorável, com caixa líquido, dividend yield estimado em 7,1%, espaço para recompras e a opcionalidade de uma eventual consolidação da fatia minoritária pela AB InBev.


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