A Tragédia, a Farsa e o Banqueiro, um século depois

<p>Escândalo Barmat na Alemanha de Weimar ajuda a iluminar, com as devidas diferenças, a erosão de credibilidade institucional em torno do caso Master no Brasil.</p>

Por Rodrigo Uchoa*, especial para Brazil Stock Guide

Homem de fé. Sua cidade não era o grande centro financeiro do país, seu sobrenome não era reconhecido entre os grandes financistas, mas ele compensou isso com uma enorme ambição e com negócios que fizeram muito dinheiro, em muito pouco tempo. Quase que de uma hora para outra, ele passou a ser citado com espanto. Parecia onipresente. Criou braços em seguros, crédito, previdência privada e renda fixa, atraindo até investidores conservadores com promessas de retornos bons demais para ser verdade.

O que impressionava, porém, não era apenas o crescimento. Era a teia que ia se formando. Eram amizades cultivadas nos lugares certos, com uma generosidade que ia muito além dos padrões habituais de quem simplesmente financia campanhas à espera de favores. Havia contribuições para parlamentares. Pipocaram nomes de ministros. Em algum momento, apareceu até o nome do filho do presidente da República. Havia o nome do chefe da polícia federal. Havia, no centro da trama, o principal banco da região que sedia a capital do país — uma instituição que aparecia, de um jeito ou de outro, como parceira ou contraparte no emaranhado financeiro.

Então vieram a falência e a prisão espetacular, numa ação que dominou os noticiários do país. O processo que se seguiu foi um espetáculo prolongado, com revelações diárias, novos nomes implicados e manchetes que pareciam não ter fim. Pairando sobre tudo, algo mais difícil de quantificar e mais difícil de recuperar do que qualquer ativo do balanço patrimonial: a credibilidade das instituições. Emergiu a sensação de que o Estado estava à venda.

Bem, estamos um século depois. O caso em tela ocorreu na Alemanha, lá para meados dos anos 1920, e o protagonista se chamava Julius Barmat.

A anatomia do caso Barmat

Julius Barmat, esposa e filho: o alvo da República de Weimar

É preciso pedir desculpas pelo artifício inicial deste texto. É velho, cômodo e tem a desvantagem de ser um dos mais abusados do jornalismo — exatamente porque funciona bem demais. Apresentar o passado como espelho do presente carrega o charme conveniente de sugerir sabedoria histórica sem o trabalho de demonstrá-la. E traz também a armadilha igualmente conveniente de forçar analogias que nem sempre se sustentam.

E é tentador demais não invocar Karl Marx, no “18 Brumário de Luís Bonaparte”: “Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos da história mundial ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A frase virou o ketchup da análise política, espremida sobre absolutamente tudo, de golpes de Estado a polêmicas de condomínio. Qualquer articulista que se descubra sem argumento a tempo do fechamento do jornal saca Marx do bolso. É o refrão universal da inteligência preguiçosa.

E, ainda assim, as coincidências entre o caso Barmat, que sacudiu a jovem República de Weimar entre 1924 e 1926, e o caso Master, que ocupa hoje as primeiras páginas do Brasil, são deliciosas demais para ignorar o clichê.

Julius Barmat nasceu por volta de 1887 em Fastov, na Ucrânia, então sob o Império Russo, filho de um rabino. Emigrou para a Holanda ainda jovem e fez fortuna no comércio de alimentos durante a Primeira Guerra Mundial. Seu maior cliente era a Alemanha, bloqueada pelo embargo naval britânico. Isso garantiu a Julius algumas relações úteis no Partido Social-Democrata (SPD), que governaria o país após a derrota na guerra e a proclamação da República em novembro de 1918.

Com a paz, Julius e seus irmãos, Simon, Salomon e Henry, se mudaram para Berlim. O que construíram foi notável pela velocidade: um conglomerado que abrangia bancos, imóveis, empresas de alimentos e uma rede de relacionamentos que subia diretamente ao topo da república. Gustav Bauer, ex-chanceler do SPD, recebeu empréstimos pessoais dos Barmat. Outros quadros do partido apareceram como conselheiros remunerados ou beneficiários da generosidade dos irmãos. A Preußische Staatsbank, o banco estatal da Prússia, estado que englobava Berlim, havia estendido linhas de crédito ao grupo em um volume que, segundo a investigação subsequente, nunca deveria ter sido autorizado.

Quando o escândalo vira arma
O colapso chegou com o aperto de crédito. Em dezembro de 1924, as autoridades prussianas prenderam Julius Barmat em sua residência em Berlim numa ação de madrugada, enquanto ele tentava embarcar em sua lancha. O processo que se seguiu foi um espetáculo de meses: audiências diárias, novos nomes revelados em ritmo de folhetim, uma imprensa que alternava entre indignação genuína e prazer pouco disfarçado de destruir a reputação dos homens que haviam fundado aquela república tão frágil.

Em “Antes do Dilúvio – A Berlim dos Anos 20”, publicado em 1972, o jornalista e historiador americano Otto Friedrich registra o estado de espírito da capital alemã naqueles anos com precisão que nenhuma monografia acadêmica conseguiria: uma cidade em que a hiperinflação de 1923 havia varrido as poupanças de uma classe média inteira e em que a ordem moral parecia ter desmoronado junto com a ordem econômica. Mas, acima disso, a desconfiança em relação às instituições era o sentimento verdadeiramente democrático, igualmente distribuído em todos os espectros políticos.

Alfred Hugenberg, o barão da imprensa sensacionalista

O caso Barmat foi o combustível perfeito para esse incêndio. A imprensa conservadora, controlada em grande parte pelo magnata Alfred Hugenberg, que pouco depois financiaria a ascensão do Partido Nazista, transformou o escândalo num símbolo da podridão sistêmica da república.

O veneno além da corrupção
Havia ali uma camada adicional de veneno. O caso Barmat não era o primeiro grande escândalo financeiro alemão com protagonista judeu. Cinquenta anos antes, o período que se seguiu à unificação do Império sob Bismarck em 1871, chamado Gründerzeit, terminou em colapso.

O crash de 1873 foi o momento em que o antissemitismo moderno alemão encontrou sua linguagem. Adolf Stoecker e Wilhelm Marr exploraram o ressentimento pós-crise para construir uma narrativa em que judeus eram, por natureza, predadores econômicos.

Na França da mesma época, o caso Dreyfus cumpriu papel semelhante: não criou o antissemitismo francês, mas o institucionalizou.

O caso Barmat chegou num momento em que a Alemanha havia acumulado humilhação suficiente para precisar urgentemente de bodes expiatórios. Para os nazistas, o caso era um presente. Joseph Goebbels e a imprensa do partido exploraram o escândalo com disciplina e crueldade.

O caminho para o qual esse antissemitismo apontou nem precisa ser detalhado aqui.

Dois casos, naturezas distintas
Neste ponto, voltar ao Brasil de 2026, ao caso Master, a Daniel Vorcaro, ao Banco de Brasília e às revelações que pingam diariamente é quase um alívio. Não porque o escândalo seja menor ou menos grave, e sim porque ele talvez se apresente mesmo como uma farsa, não como uma tragédia.

O banqueiro no banco dos réus: prenda os suspeitos de sempre

As diferenças entre os dois casos são enormes. O Brasil tem seus próprios fantasmas — do “Mar de Lama” ao “Petrolão”. Por outro lado, o veneno que destruiu a República de Weimar tinha uma natureza distinta: não era apenas corrupção, mas sim um ódio institucionalizado que usou a corrupção como combustível.

O que o caso Master compartilha com o caso Barmat é o esqueleto nu. Talvez uma boa advertência seja de que repúblicas não morrem apenas de golpes, morrem também pelo descrédito.

Tentar explicar um caso tendo o outro como paradigma seria como pedir precisão a quem joga uma granada num quarto escuro na esperança de acertar alguma coisa. Mesmo assim, usar o truque de misturar tragédia e farsa parece irresistível.

PS. A efeméride que justifica esse texto é a sentença de Julius Barmat, proferida em 1926. Foi uma condenação leve. Ele cumpriu e emigrou. Nenhuma autoridade da República de Weimar foi condenada.

*Instagram: http://www.instagram.com/theskepticalhedonist/


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