Cinco Tendências de consumo em 2026 — e como o Brasil está surfando (com um pé atrás)

<p>Como valor, bem-estar, viagens, revenda e pagamentos sem atrito estão redesenhando o consumo — com um toque brasileiro</p>

Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide

Em 2026, “confiança do consumidor” deixou de ser um estado de espírito e virou uma negociação permanente. As pessoas seguem querendo prazer, novidade e identidade — mas também querem prova: de que o produto entrega, de que o preço faz sentido, de que a marca não está tratando o público como um alvo estatístico. O consumo, no fundo, ficou menos impulsivo e mais editorial: cada compra pede uma justificativa (ainda que, no momento decisivo, ela venha embalada de desejo).
A seguir, cinco tendências globais e seus reflexos no Brasil — com as particularidades de um país que alterna sofisticação e improviso com a mesma naturalidade com que paga um café no Pix.

1) O teatro do valor: economizar com método, gastar com intenção

Mundo
•⁠ ⁠Não é apenas “trocar por mais barato”; é escolher onde economizar e onde fazer questão. Moda e beleza estão no centro dessa curadoria, com consumidores mais frios, calculistas e menos fiéis.
•⁠ ⁠O relatório State of Fashion 2026 observa que mais de 60% dos consumidores planejavam um “trade down” no fim de 2025, deixando o terreno pronto para um 2026 mais cauteloso e seletivo.

Brasil
• Aqui, essa lógica parece antiga, como se a inflação tivesse dado um curso de pós-graduação na prática do “custo-benefício”. O brasileiro compara, espera promoção, troca de marca, mas continua abrindo exceções para certos símbolos de permanência (um bom sapato, um belo relógio, um jantar que vira instamagrável).
•⁠ ⁠O digital amplifica o comportamento: projeções associadas à ABComm apontam faturamento acima de R$ 258 bilhões no e-commerce em 2026 (+10%), com tíquete médio também em alta.

2) Bem-estar “profissional”: menos mantra, mais protocolo (e beber vira opcional)

Mundo
•⁠ ⁠O wellness saiu do campo aspiracional e entrou no regime de desempenho. Consumidores querem soluções com cara de clínica — só que na prateleira.
•⁠ ⁠A Euromonitor, ao listar as tendências globais para 2026, resume bem o espírito: bem-estar holístico, autenticidade e autoexpressão e a ideia de que “wellness is going pro”.
•⁠ ⁠Paralelamente, o álcool perde monopólio social. A IWSR estima crescimento de ~7% ao ano (CAGR) para bebidas “no-alcohol” entre 2024 e 2028, com a categoria puxando a expansão do no/low.

Brasil
•⁠ ⁠O bem-estar brasileiro tende a ser menos puritano e mais hedonista: busca-se saúde sem penitência. Zero álcool, sim, desde que seja gostoso. Skincare, sim, mas sem “liturgia” insuportável. Academia, sim, mas com espaço para uma recompensinha.
•⁠ ⁠O filtro cultural é pragmático: promessa demais vira meme em grupo de WhatsApp. O consumidor testa a marca na conversa social antes de acreditar no anúncio.

3) Viagem como identidade: menos “quilometragem”, mais significado (e o bleisure normaliza)

Mundo
•⁠ ⁠Viajar é cada vez mais uma forma de dizer quem se é, e não apenas onde se esteve. A Global Hotel Alliance descreve um viajante de 2026 mais intencional, em busca de conexão, conforto e autenticidade, “meaning, identity and restoration”.
•⁠ ⁠E o trabalho entrou nessa equação: a Navan aponta que 55% dos viajantes corporativos fizeram pelo menos duas viagens bleisure (business + leisure) em 2024, misturando agenda profissional e extensão de lazer.

Brasil
•⁠ ⁠O país colhe dividendos desse imaginário global: natureza, cultura, gastronomia e “experiência” (com E maiúsculo) voltaram a ter apelo internacional. A Embratur informou que o Brasil fechou 2025 com recorde de 9,2 milhões de turistas internacionais, e dezembro cresceu 11% na comparação anual.
•⁠ ⁠No mercado interno, a divisão é clara: uma parte compra conforto (hotel melhor, boa mesa, deslocamento sem sofrimento); outra compra enredo (rotas de vinho, cidades históricas, festivais, praias “redescobertas”). Ambos querem história — só muda a tarifa.

4) Segunda mão como canal principal: circularidade vira status (e conveniência)

Mundo
•⁠ ⁠O resale deixou de ser “plano B” e passou a ser infraestrutura. O ThredUp Resale Report 2025 registra que o mercado global de secondhand cresceu 15%, e que a segunda mão já equivale a 9% dos gastos globais com vestuário.
•⁠ ⁠A sustentabilidade ajuda, mas o motor real é triplo: preço, exclusividade e a sensação de compra “inteligente”.

Brasil
•⁠ ⁠A recommerce brasileira amadurece por duas razões muito locais: a necessidade (liquidez de guarda-roupa) e o prazer da caça (o achado). O brechó virou tanto estratégia financeira quanto esporte cultural.
•⁠ ⁠Há recortes por gênero e estilo: mulheres sustentam a rotação cotidiana; homens tendem a “financeirizar” categorias específicas (tênis, relógios, itens colecionáveis), onde a compra parece quase um investimento — ou, ao menos, um ativo emocional.

5) O consumidor do “agora”: pagamento invisível, compra social — e antipatia ao empurrão

Mundo
•⁠ ⁠Plataformas querem que a compra seja entretenimento e o checkout seja inexistente. Mas o consumidor está mais impaciente com a persuasão barata.
•⁠ ⁠A mesma Euromonitor que fala em “autoexpressão” e autenticidade também sugere um recado: a marca pode até captar atenção com tecnologia — mas não consegue fabricar confiança apenas com performance.

Brazil
•⁠ ⁠O Brasil é laboratório de fricção mínima. O PIX virou padrão cultural e escala econômica: a Agência Brasil reportou R$ 26,4 trilhões movimentados em 2024 e a conversa sobre recorrência só aumenta.
•⁠ ⁠A Reuters também destacou o próximo salto: o Pix Automático para pagamentos recorrentes, mirando assinaturas e contas periódicas.
•⁠ ⁠O paradoxo brasileiro é delicioso: adota-se a conveniência com entusiasmo, mas desconfia-se do discurso. Compra-se em dois cliques; valida-se em dez opiniões.

Fecho: o brinde do hedonista cético

Esta coluna vai acompanhar cada uma dessas tendências com a dose necessária de dúvida. Pesquisa não é mandamento; “insight” também segue modas — e algumas passam tão rápido quanto a espuma de uma novidade. Mas o ceticismo não precisa ser sinônimo de cinismo. Há prazer legítimo no consumo bem escolhido: uma boa viagem, uma boa peça, uma boa bebida (com ou sem álcool). Em 2026, a arte é essa: desfrutar sem ser levado no colo pelo marketing — e desconfiar sem abrir mão do gosto.
@OManualdoHedonistaCetico


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