By Brazil Stock Guide – A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) elevou o tom nesta quarta-feira (25) e deu um prazo até o dia 27 de março para que a Unimed do Brasil apresente medidas concretas para normalizar o atendimento aos beneficiários no Rio de Janeiro, sob risco de sanções administrativas. O movimento marca uma escalada na atuação do regulador diante de uma crise que já atravessou diferentes operadores sem solução efetiva.
O problema, originado no colapso da Unimed-Rio, passou pela Unimed Ferj e hoje está sob responsabilidade da Unimed do Brasil — mantendo elevado nível de reclamações e falhas operacionais. Apesar de avanços pontuais, a ANS ainda aponta problemas recorrentes, como demora em autorizações, desatualização da rede credenciada e dificuldades de acesso a serviços médicos.
“Não é aceitável que persistam falhas de comunicação, desinformação sobre a rede credenciada ou dificuldades de acesso à assistência. A operadora responsável precisa adotar medidas concretas e imediatas para a normalização do atendimento”, disse Wadih Damous, presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em nota.
Os números ajudam a dimensionar a crise. Dados da ANS mostram que a Unimed Ferj reúne 317.615 beneficiários, com base de corte em 10 de março de 2026, e aparece como entidade sem envio válido de DIOPS, o sistema obrigatório de informações econômico-financeiras das operadoras. Isso adiciona uma camada relevante de risco: além da deterioração assistencial, há sinais de fragilidade na transparência e na organização financeira da operação.
Na ponta, a percepção do usuário confirma o quadro. Dados da plataforma Reclame Aqui indicam que a Unimed Ferj possui avaliação “não recomendada”, com nota média de 4,3/10 nos últimos seis meses. No período, foram registradas 3.253 reclamações, com taxa de resposta de apenas 56,7% e cerca de 1.258 queixas ainda sem retorno. O tempo médio de resposta supera 23 dias, enquanto apenas 51,8% dos casos foram resolvidos — indicadores que reforçam a deterioração da experiência do beneficiário.
Promessa não entregue
Os problemas atuais contrastam com a comunicação feita no início da transição. Em comunicado divulgado em 5 de janeiro, a Unimed informou que os beneficiários da Unimed Ferj passariam a ser atendidos pela rede credenciada da Unimed do Brasil para consultas, exames e internações, em um modelo no qual a Ferj manteria a gestão contratual, enquanto a operação assistencial — incluindo autorizações — ficaria sob responsabilidade da estrutura nacional.
Na ocasião, a expectativa era de maior agilidade e autonomia no atendimento, com uso de um novo cartão e acesso direto à rede da Unimed do Brasil, sem alteração dos direitos contratuais. Pouco mais de dois meses depois, no entanto, os dados da ANS e as reclamações de usuários indicam que a transição não resultou na normalização esperada — e que parte relevante das falhas operacionais persiste.
Transferência sem cura
A cronologia do caso reforça o caráter estrutural da crise. O colapso da Unimed-Rio desencadeou uma sequência de transferências — primeiro para a Unimed Ferj e, desde novembro de 2025, para a Unimed do Brasil — sem reequilíbrio efetivo da carteira. Em menos de dois anos, três estruturas distintas assumiram a operação, com persistência dos mesmos problemas.
Na prática, a carteira se comporta como um passivo recorrente. A ausência de solução, mesmo com a entrada de uma entidade de maior porte dentro do sistema Unimed, sugere que o desequilíbrio vai além da gestão e envolve fundamentos econômicos da operação, como custo assistencial elevado, rede fragilizada e possível descasamento entre receitas e despesas médicas.
Embora a crise tenha se concentrado dentro do sistema Unimed, seus efeitos se espalharam pelo mercado do Rio de Janeiro. A desorganização da rede e a perda de credibilidade beneficiaram outras operadoras localmente, em especial a Amil, mas também a SulAmérica e a Bradesco Saúde, apontam especialistas.
Conta aberta
Após passar por Unimed-Rio, Unimed Ferj e agora Unimed do Brasil, a crise continua sem solução definitiva. O caso do Rio expõe um dilema central do setor de saúde suplementar. Quando uma carteira se torna estruturalmente desequilibrada, a simples troca de operador não resolve o problema — apenas o transfere.
A Unimed do Brasil, por sua vez, informou em nota enviada às 11h30 de 26 de março que respondeu aos questionamentos da ANS e vem adotando medidas para normalizar o atendimento. A operadora afirma que está recompondo a rede assistencial, com novos contratos, retomada de atendimentos por médicos da Unimed Rio e autorização contínua de procedimentos, tendo atendido cerca de 160 mil beneficiários desde janeiro de 2026. Também reiterou que o arranjo, em vigor desde novembro de 2025, abrange 234 mil beneficiários sob modelo de compartilhamento de risco, sem migração de carteira.
