Hapvida corta sinistralidade, mas ainda deve uma virada

<p>Queda dos custos médicos melhora margem no 1T26, mas perda de vidas em saúde, prejuízo contábil e alavancagem maior limitam a leitura.</p>

Hapvida

By Brazil Stock Guide – A Hapvida (HAPV3) reduziu a sinistralidade caixa no primeiro trimestre de 2026 e recuperou parte da margem perdida no fim do ano passado. Mas a maior operadora de saúde verticalizada do Brasil ainda não entregou a virada completa: perdeu 44,5 mil vidas em planos de saúde, reportou prejuízo líquido de R$ 154,3 milhões e fechou março com alavancagem maior que um ano antes.

A receita líquida somou R$ 7,892 bilhões, alta de 5,2% sobre o 1T25 e queda de 0,3% frente ao 4T25. O Ebitda ajustado chegou a R$ 803,3 milhões, com margem de 10,2%. O número cresceu 12,5% ante o trimestre anterior, mas ainda ficou 20% abaixo do mesmo período de 2025. O lucro líquido ajustado foi de R$ 244 milhões, avanço sequencial de 35,1%, porém queda anual de 41,4%.

A companhia atribuiu a melhora de custos à normalização parcial da utilização médica, depois de um fim de 2025 pressionado. Segundo o relatório, a menor utilização em dezembro e o padrão sazonal de janeiro e fevereiro ajudaram a reduzir o transbordo de contas da rede credenciada no 1T26.

Custo médico dá alívio

O dado mais importante do trimestre foi a sinistralidade caixa, que caiu para 72,2% da receita líquida. No 4T25, ela havia atingido 75,5%. As contas médicas caixa recuaram 4,6% na comparação trimestral, para R$ 5,697 bilhões. Isso deu oxigênio ao Ebitda e mostrou que a Hapvida voltou a capturar parte do benefício de sua rede própria.

Mas o alívio ainda não apaga o passado recente. A sinistralidade ficou 0,4 ponto percentual acima do 1T25. Além disso, março voltou a mostrar volumes acima do histórico, com efeito rebote em procedimentos eletivos e maior incidência de quadros infecciosos. Portanto, o mercado ainda precisa ver se a melhora foi sazonal ou estrutural.

Essa dúvida importa porque a tese da Hapvida depende de uma equação simples, mas difícil: manter preços, controlar custos médicos e voltar a crescer em vidas. Sem as três coisas ao mesmo tempo, a recuperação fica incompleta.

Preço segura receita

O ticket médio dos planos de saúde subiu para R$ 305 por mês, alta de 7,3% em um ano. A companhia apontou avanço de 8,3% no preço líquido, parcialmente compensado por efeito negativo de 1% de mix. Na prática, o reajuste compensou a perda de volume.

A base de planos de saúde encerrou março com 8,684 milhões de beneficiários, abaixo dos 8,729 milhões de dezembro e dos 8,799 milhões de março de 2025. A perda líquida de 44,5 mil vidas foi bem menor que a queda de 139,9 mil do 4T25. Ainda assim, saúde segue encolhendo.

A fotografia regional foi desigual. O canal corporativo melhorou na Região Metropolitana de São Paulo e no Sul. Também houve adições líquidas no Rio de Janeiro, Centro-Oeste, Norte e Região Metropolitana de Belo Horizonte. Porém Recife e Salvador perderam dois contratos com mais de mil vidas. Enquanto isso, os canais individual e adesão sofreram com efeitos e despesas de Carnaval, IPTU, IPVA e matrículas escolares, apontou a empresa.

O dental foi o contraponto. A Hapvida adicionou 60,3 mil vidas em planos odontológicos e chegou a 7,190 milhões de beneficiários. A receita odontológica ficou em R$ 222 milhões, queda de 3,7% ante o trimestre anterior, por causa de uma estratégia mais agressiva de cross-selling para reter clientes de saúde.

As despesas, porém, ainda pesam. As despesas administrativas caixa e de vendas somaram R$ 1,252 bilhão, ou 15,9% da receita líquida. A alta foi de 1,8 ponto percentual sobre o 4T25 e de 2,4 pontos percentuais sobre o 1T25. A linha administrativa caixa subiu para R$ 632,4 milhões, pressionada por pessoal, contingências, tributos e efeitos pontuais.

O caixa trouxe uma leitura melhor. O fluxo de caixa livre somou R$ 442,8 milhões, com conversão de 81,1% do Ebitda ajustado. A posição de caixa aumentou R$ 478 milhões no trimestre, para R$ 8,663 bilhões. Isso dá fôlego à companhia em um momento em que margem e crescimento ainda não caminham juntos.

A dívida líquida ficou em R$ 5,165 bilhões, praticamente estável frente a dezembro. Ainda assim, subiu 24% contra o 1T25. A alavancagem pelo covenant contratual avançou para 1,38 vez o Ebitda dos últimos 12 meses, contra 1,32 vez no 4T25 e 0,98 vez um ano antes. Excluindo efeitos pontuais, o índice teria sido de 1,34 vez.

O resultado, portanto, entrega uma mensagem mista. A Hapvida mostrou que ainda consegue reduzir custo médico e gerar caixa. Mas também mostrou que a integração, a judicialização, a perda de vidas e a recomposição de margem seguem no centro do risco.


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