By Brazil Stock Guide – A Hapvida (HAPV3) entrou no centro de um embate com acionistas após a Squadra Investimentos — um dos fundos mais ativos do país — acusar a companhia de protagonizar “uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro”.
A carta, endereçada ao presidente do conselho Candido Pinheiro Koren de Lima, ao CEO Jorge Fontoura Pinheiro Koren de Lima — ambos da família controladora — e a área de Relações com Investidores coloca a pressão diretamente sobre a alta liderança da companhia.
Na mensagem, a qual o Brazil Stock Guide teve acesso, a Squadra, que detém 6,98% do capital votante, faz uma crítica abrangente à condução da companhia desde o IPO, em 2018. Enquanto o Ibovespa acumulou alta de cerca de 120% no período, as ações da Hapvida caíram aproximadamente 85%, eliminando dezenas de bilhões de reais em valor de mercado.
A operadora de planos de saúde, que chegou a valer mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado, vale menos de R$ 5 bilhões na Bolsa de Valores de São Paulo. A Hapvida é a maior empresa do setor em número de clientes, mais de 8 milhões de beneficiários.
Erros estratégicos
O principal ponto de ataque é a alocação de capital. Segundo a Squadra, a estratégia agressiva de fusões e aquisições — com destaque para a combinação com a NotreDame Intermédica — diluiu o negócio original e falhou em capturar as sinergias prometidas.
Na prática, o resultado foi o oposto: cerca de R$80 bilhões em valor de mercado foram destruídos desde a transação, enquanto a integração operacional, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, segue problemática até hoje.
A deterioração operacional também chama atenção. Mesmo com o setor de saúde suplementar registrando lucros recordes em 2025, a Hapvida perdeu beneficiários nessas regiões, indicando perda de competitividade e piora na percepção de valor pelos clientes.
Ao mesmo tempo, a alavancagem aumentou de forma relevante, elevando o custo da dívida — com spreads acima de CDI+9%. Ainda assim, a empresa utilizou R$384 milhões em caixa para recomprar ações, decisão vista pelo fundo como incompatível com a situação financeira.
A Squadra levanta dúvidas sobre a qualidade dos números reportados e sobre a leitura da gestão em relação ao próprio negócio. “A manutenção de um goodwill de R$ 44 bilhões sem qualquer reconhecimento de impairment, mesmo diante da deterioração dos resultados, perda de participação de mercado, aumento do custo de capital e insucesso nos turnarounds, é difícil de conciliar com a realidade operacional da companhia.”
Quebra de governança
A crítica vai além da operação e atinge o coração da governança. A Squadra aponta concentração de poder na família controladora, adoção de mecanismos como poison pill que limitam minoritários e um conselho com baixa independência. Também questiona a remuneração da alta administração, considerada excessiva diante do desempenho da companhia.
O CEO — membro da família controladora — recebeu cerca de R$110 milhões entre 2023 e 2024. Já o Conselho de Administração teve remuneração superior a R$60 milhões por ano, com bônus atingindo 94% das metas mesmo em um cenário de destruição de valor.
“A incapacidade de reter executivos-chave comprometeu a execução da estratégia. Dos sete nomes apresentados ao mercado há menos de três anos, apenas dois permanecem — um deles o CEO da família controladora”, escreve a gestora.
A carta ainda menciona reapresentação de balanços, reconhecimento tardio de passivos relevantes e falta de visibilidade da gestão sobre o próprio negócio — evidenciada por projeções excessivamente otimistas que foram posteriormente revisadas para baixo.
Um conselho desconectado
Apesar desse histórico, a proposta da administração para a assembleia de 2026 prevê a reeleição integral dos nove membros do conselho, com redução de independência e remuneração total de R$57 milhões — cerca de 20% do lucro projetado. Para a Squadra, isso evidencia um conselho “em descompasso” com a realidade da companhia.
A cartada ativista
Diante disso, o fundo partiu para uma estratégia clássica de ativismo. Solicitou a adoção do voto múltiplo — mecanismo que amplia o poder dos minoritários — e indicou três candidatos independentes: Tania Sztamfater Chocolat, Bruno Magalhães e Silva e Eduardo Parente Menezes.
Os nomes têm experiência em alocação de capital, reestruturação e governança — competências críticas para o momento da companhia. O objetivo é claro: reduzir a influência do bloco de controle, aumentar a independência do conselho e impor maior disciplina estratégica. A assembleia marcada para 30 de abril se torna, assim, crítica.
Tese de desmembramento
A Squadra defende que a Hapvida avalie a venda de ativos nas regiões Sul e Sudeste, onde o turnaround não avançou. Segundo a gestora, esses ativos podem valer hoje mais fora da companhia do que dentro dela. A venda permitiria reduzir a alavancagem, recompor o balanço e concentrar esforços nas operações mais rentáveis — especialmente no core histórico do Norte e Nordeste.
Procurada, a Hapvida não comentou até a publicação desta matéria. O Brazil Stock Guide atualizará o texto assim que houver posicionamento da companhia.
Este artigo foi atualizado às 17h15 do dia 2 de abril.
Em nota, a Hapvida informa que, no final do dia de ontem, recebeu a carta mencionada. O documento está sendo analisado pelo Conselho de Administração com a atenção necessária e a companhia se manifestará oportunamente sobre o assunto.
