Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
Se você estiver passando numa tarde de outono pelo vale do lago de Como, no norte da Itália, enquanto a névoa desce sobre as águas escuras, feche os olhos por um segundo e imagine o ruído dos teares, o cheiro de algodão úmido… E quase dará para sentir nas mãos o toque de alguns dos mais finos têxteis que o mundo já viu, saídos das mãos de tecelões treinados por décadas.
Na pequena cidade de Asso, nas colinas acima do lago de Como, a Oltolina funcionou por décadas como um dos segredos mais bem guardados da moda mundial. Não era um nome de vitrines ou de campanhas publicitárias. Era um nome sussurrado entre os shirtmakers mais exigentes de Nápoles, Londres e Tóquio. Os tecidos de camisaria da Oltolina, suas popelinas de algodão egípcio de fio finíssimo, batistas translúcidas e piqués de precisão milimétrica, chegavam às mesas de corte das melhores camicerie do mundo. Uma camisa feita com aquele tecido custava o equivalente a um bom terno.
Em 2016, um tribunal de Milão encerrou esse capítulo. A Oltolina foi declarada falida, depois de dois anos em concordata preventiva que não conseguiu reverter a sangria financeira. Cinquenta trabalhadores entre os mais especializados do país ficaram sem emprego, sem receber três meses de salário. A tecelagem histórica não resistiu à tempestade perfeita que há anos assola o setor têxtil europeu de alta qualidade.

Não é um caso único. É, de fato, apenas um capítulo em uma história muito mais longa. O Cotonifício Cantoni, fundado em Legnano em 1828, foi por quase um século a maior empresa algodoeira da Itália. Em seu auge, empregava 5.000 pessoas e tinha fábricas em seis cidades da Lombardia. Em 2004, após décadas de declínio acelerado pela competição estrangeira e pelo aumento dos custos de energia e mão de obra, encerrou as atividades. Suas instalações viraram condomínios e centros comerciais.
Ao longo dos últimos cinco anos, quase 15% dos processadores italianos de lã se consolidaram ou simplesmente fecharam as portas, segundo dados do setor. A associação europeia do setor, a Euratex, registrou em 2025 o terceiro ano consecutivo de resultados negativos em todos os indicadores-chave: produção, faturamento e emprego. “As causas são claras”, disse a entidade em relatório recente: “Custos de energia estruturalmente altos, demanda fraca dos consumidores, pressão crescente das importações asiáticas e uma carga regulatória cada vez mais pesada sobre os produtores europeus”.
Os números dão dimensão ao problema. Os tecidos de poliéster chineses chegam à Europa com preços 28% abaixo do que as fábricas italianas conseguem oferecer. Nos blends de algodão, o desconto chega a 34%. Os custos de energia dispararam 12% a 18% na Alemanha e na Espanha só em 2024, corroendo margens já apertadas, especialmente entre as pequenas e médias empresas sem capacidade de hedge energético. E há custos de compliance para se ajustar a medidas de mitigação de carbono, custos que empresas de Vietnã, Bangladesh e Camboja simplesmente ignoram.

Se a concorrência asiática e os custos europeus já eram suficientes para abalar o setor, uma terceira força entrou em cena com força após a pandemia: a casualização definitiva do vestuário corporativo.
O mercado global de tecidos de alfaiataria é significativo, avaliado em US$ 15,9 bilhões em 2024. Parece um número robusto, mas há um contexto cultural mais complexo. Hoje, 42% dos profissionais da Geração Z preferem alternativas mais baratas ao terno de lã tradicional, segundo pesquisas do setor. A camisa social, o território por excelência de tecelagens como a Oltolina, perdeu seu lugar obrigatório nas reuniões das grandes corporações globais. O código de vestimenta business casual, que no léxico atual frequentemente significa calça chino e tênis, destruiu um mercado que levou séculos para ser construído.
É a culminação da chamada tempestade perfeita: concorrência asiática agressiva, custos europeus proibitivos, regulação onerosa e, por fim, o cliente simplesmente parando de comprar o produto.
Os sobreviventes e suas apostas
Nem todos sucumbiram. Os grandes players que permanecem no topo do segmento de ultraluxo aprenderam que a sobrevivência exige reinvenção constante, mas sem abandonar a identidade que os torna insubstituíveis.
A Loro Piana, fundada em 1924 no Piemonte e hoje controlada pela LVMH, é a mais icônica de todas. Seus tecidos de vicunha, a fibra mais rara e cara do mundo, extraída uma vez por ano de camélidas selvagens nos Andes peruanos, chegam a custar mais de € 3 mil pelo metro. Há também a caxemira baby, da Mongólia, e os tecidos de lã Super 180s, com micrômetros que desafiam a engenharia têxtil. A marca navega hoje na crista da tendência do quiet luxury, a ideia de que o luxo não precisa de logotipo, de que o reconhecimento vem pelo toque e pelo caimento, e não pela etiqueta visível.
A Ermenegildo Zegna, fundada em 1910 também em Biella, deu um passo diferente: verticalizou radicalmente e transformou-se em marca de moda completa, não apenas fornecedora de tecido. Suas linhas Techmerino e High Performance — lãs laváveis à máquina, resistentes a amassados, com regulação térmica — são uma resposta direta à casualização.

A Dormeuil, fundada em Paris em 1842, mas que muita gente associa de imediato à alfaiataria britânica e à Saville Row (a rua no coração de Mayfair, Londres, que se tornou sinônimo mundial de alfaiataria masculina), conserva uma aura de inacessibilidade deliberada: algumas de suas estampas mais exclusivas são produzidas em apenas alguns metros no mundo inteiro. Suas coleções usam fibras de raridade quase lendária: há a lã Taewit de cabras de altitude do Quirguistão e as misturas de mohair com seda e caxemira que produzem um brilho especial.

A Scabal, fundada em Bruxelas em 1938, foi pioneira na criação do sistema de designação “Super” para lãs superfinas — o vocabulário que hoje toda a indústria usa. Seus tecidos Super 180s e 210s são literalmente mais finos do que um fio de seda natural.

Para camisaria, o grande exemplo é o Cotonificio Albini, de Bergamo, fundado em 1876 e que está hoje sob a administração da quinta geração da família fundadora. Ele produz mais de 13 mil variações de tecido por ano, usando algodão egípcio giza e o raro Sea Island Cotton, de Barbados. Em 1992, o Grupo Albini adquiriu a icônica marca inglesa Thomas Mason, fundada em 1796 e fornecedora histórica da família real britânica. A aposta aqui é preservar a herança e renovar a produção.

O que une todos esses sobreviventes é uma aposta em comum: a rastreabilidade como argumento de venda. Etiquetas QR com blockchain documentando a origem das fibras, o processamento químico e a pegada de carbono são hoje parte da proposta de valor, não apenas uma exigência regulatória.
O fio que resiste
O mercado de tecidos de alfaiataria de ultraluxo deve crescer a uma taxa anual composta de 4,4% até 2032. Há uma ironia: boa parte desse crescimento deve vir da Ásia, onde a classe profissional identificada pelo mundo corporativo se expande e a cultura do terno está em ascensão, justamente quando o Ocidente a abandona. A Índia cresce 9% ao ano no consumo de tecidos de alfaiataria. A China procura criar seus próprios símbolos de prestígio.
“O ultra luxo têxtil europeu sobrevive não pela escala, que é o campo no qual a Ásia vence com ampla vantagem , mas pela combinação de herança histórica verificável, inovação técnica genuína e uma narrativa de proveniência que nenhuma fábrica em Hangzhou ou Surat consegue ainda replicar de forma convincente”, observa Ercole Botto Poala, CEO da tecelagem italiana Reda, que faturou US$ 83 milhões em 2024. “O produto físico e a história que o acompanha precisam ser igualmente impecáveis.”
No vale de Asso, as instalações da Oltolina estão vazias. Mas em Biella, em Bergamo, em Como, nos moinhos de Yorkshire e nos ateliês de Paris, os teares ainda funcionam. O fio ainda resiste, mais fino e mais tenso do que nunca.
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