JBS Corta Capex e Tenta Convencer Wall Street de Que o Pior Ficou Para 2026

<p>Companhia reduz investimento em US$ 400 milhões, mira margem na carne bovina dos EUA e aposta em Seara e Austrália para reabrir a tese de re-rating.</p>

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By Brazil Stock Guide – A JBS saiu de seu Investor Day em Nova York com uma mensagem cuidadosamente calibrada para Wall Street: o ciclo segue duro, sobretudo na carne bovina e no frango nos Estados Unidos, mas a companhia diz ter alavancas próprias para atravessar 2026, preservar o grau de investimento e preparar uma retomada de lucros em 2027.

Para Ricardo Alves, do Morgan Stanley, a queda recente da ação não desmonta a tese de re-rating. “Para investidores com paciência, JBS parece atrativa aqui”, escreveu o banco, que manteve recomendação Overweight e preço-alvo de US$ 19 para os papéis. A ação está cotada a US$ 12,20, uma queda de 13,7% no ano.

O tom positivo foi compartilhado por outros bancos, ainda que com graus diferentes de cautela. Para Andrew Strelzik, do BMO Capital Markets, o evento reforçou a ideia de que a fase ruim está perto do fundo. “Saímos com maior confiança de que 2026 deve ser o fundo cíclico do Ebitda”, escreveu o analista, ao manter recomendação Outperform e preço-alvo de US$ 18.

A decisão mais concreta foi cortar o plano de capex de 2026 em US$ 400 milhões, de US$ 2,4 bilhões para US$ 2 bilhões. A redução não foi apresentada como cancelamento de projetos, mas como postergação de iniciativas de maturação mais longa, como expansões na Austrália. A leitura dos analistas é que a JBS está escolhendo defender o balanço no momento em que a alavancagem se aproxima do topo da faixa considerada confortável pela companhia, entre 2x e 3x dívida líquida/Ebitda.

No crédito, Priya Ohri-Gupta e Teresa Tian, do Barclays, também leram o corte como sinal de disciplina. “A companhia está moderando o capex para garantir que a alavancagem fique abaixo de 3x”, escreveram as analistas, que reiteraram recomendação Overweight para os papéis de dívida e disseram continuar vendo valor nos bonds longos da JBS.

Esse foi o ponto central do evento: a JBS tentou mostrar que continua sendo uma plataforma global de proteínas em crescimento, mas que está disposta a pisar no freio quando o ciclo exige. Para investidores, a combinação importa porque a empresa carrega ao mesmo tempo uma tese de crescimento, dividendos relevantes e um desconto de valuation em relação aos pares americanos.

Isabella Simonato, Peter Galbo, Fernando Olvera e Julia Zaniolo, do BofA, resumiram o pitch de forma direta: “Vemos a JBS como um benchmark na indústria global de proteínas em estratégia, alocação de capital e execução.” O banco manteve recomendação Buy, com preço-alvo de US$ 20 para a ação em NYSE e R$ 100 para o papel negociado no Brasil.

A carne bovina nos EUA foi o principal foco. O negócio continua pressionado por um rebanho historicamente baixo, custo elevado do gado e margens fracas na indústria de abate. Mas a JBS apresentou um plano para melhorar sua margem relativa em 3 pontos percentuais até 2027, com ganhos vindos de execução comercial, eficiência operacional, rendimento industrial e mix de produtos.

Para Henrique Brustolin, do Bradesco BBI, essa é a parte mais importante da tese operacional. “A carne bovina dos EUA segue como o principal peso de curto prazo”, escreveu o analista, mas a JBS ainda vê espaço para melhorar margens por iniciativas internas e por mudanças no setor. O Bradesco manteve recomendação Outperform e preço-alvo de US$ 22, o maior entre os relatórios vistos pelo BSG.

A companhia também defendeu que a recuperação das margens não depende exclusivamente da recomposição do rebanho americano, um processo que pode levar anos. Parte do desequilíbrio entre oferta de gado e capacidade industrial já estaria sendo corrigida por fechamento de plantas no setor. Outro fator relevante seria a eventual reabertura do fluxo de gado do México para os EUA, que poderia equivaler a dois ou três anos de reconstrução de rebanho.

A mensagem é importante porque muda a natureza da tese. Em vez de pedir ao investidor para esperar passivamente por uma virada cíclica, a JBS tenta convencer o mercado de que há medidas internas capazes de reduzir o dano até que o ciclo melhore. A integração de estruturas de compra de gado, maior foco em patties e carne moída, melhor relacionamento com grandes clientes e fechamento da planta de Souderton, na Pensilvânia, entram nessa agenda.

Ainda assim, os analistas trataram o plano com uma dose de cautela. O setor de carne bovina dos EUA segue no ponto mais difícil do ciclo, e promessas de eficiência só ganharão crédito quando aparecerem no resultado. A própria JBS reconhece que o ambiente permanece desafiador, embora sustente que a demanda por carne bovina segue resiliente, especialmente entre os consumidores mais pesados da categoria.

No frango, o diagnóstico foi menos estrutural e mais tático. A Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, começou 2026 com pressão de oferta. A indústria aumentou produção esperando que o preço alto da carne bovina empurrasse consumidores para o frango, mas a substituição veio abaixo do esperado. Varejistas não reduziram preços de peito de frango de forma relevante, restaurantes demoraram a retomar promoções e o consumo de carne bovina se mostrou mais resistente.

Pooran Sharma, da Stephens, destacou que o cenário de curto prazo ainda exige cuidado. “Os fundamentos de curto prazo podem seguir desafiadores em PPC e JBS Brasil”, escreveu o analista. Mesmo assim, a casa manteve Overweight Volatile e preço-alvo de US$ 18, argumentando que a ação continua atraente para investidores de prazo mais longo.

A expectativa da administração é de melhora no segundo semestre, com ajuste no alojamento de aves e retomada de promoções no foodservice. Ao mesmo tempo, a PPC continua tentando reduzir exposição ao frango mais commodity, avançando em preparados, marcas, snacks e produtos de maior valor agregado. O crescimento da marca Just Bare nos EUA foi usado como exemplo do tipo de negócio que a JBS quer ampliar: menos dependente do preço spot e mais conectado ao consumidor final.

No Brasil, a Seara apareceu como a principal história de captura de investimento. A unidade recebeu cerca de R$ 10 bilhões em capex entre 2021 e 2025, elevando capacidade em suínos, aves e produtos de valor agregado. O ponto agora é transformar capacidade instalada em volume, mix e margem. Segundo os relatórios, ainda há cerca de 8% de crescimento de volume a ser capturado do ciclo já concluído, antes mesmo dos projetos que entram em operação em 2026.

Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, do Itaú BBA, destacaram a mudança de patamar da unidade brasileira. “A marca forte e a inovação da Seara impulsionam ganhos de market share”, escreveram os analistas. O Itaú manteve Outperform e preço-alvo de US$ 18, vendo a diversificação geográfica e de segmentos como amortecedor de volatilidade.

A força da marca também entrou no centro da narrativa. A Seara ampliou penetração nos lares brasileiros, ganhou participação em categorias como pizzas congeladas, frios, congelados e cortes de frango, e vem tentando explorar tendências de conveniência, air fryer e refeições rápidas. A leitura dos bancos é que a unidade ainda não entrega todo seu potencial, mas já deixou de ser apenas uma promessa de capex para virar uma tese de execução.

A Friboi, por sua vez, foi apresentada como uma plataforma de produtividade no Brasil. A JBS vê espaço para elevar abates de cerca de 200 mil para 230 mil cabeças por semana com pouco investimento adicional, aproveitando turnos e ativos existentes. A companhia também argumenta que o Brasil pode produzir mais carne não apenas com maior rebanho, mas com genética, nutrição, carcaças mais pesadas, abate mais jovem e uso crescente de DDG, subproduto do etanol de milho.

Essa visão ajuda a compensar um risco de curto prazo: a possível exaustão de cotas de exportação para a China. A administração indicou que eventuais impactos poderiam ser administrados com redirecionamento de volumes para outros mercados, sem necessidade imediata de reduzir abates. Para investidores, o ponto é saber se essa flexibilidade será suficiente caso a janela de exportação para a China fique mais restrita por vários meses.

A Austrália foi outro vetor positivo. O negócio combina carne bovina, suínos, preparados, cordeiro e salmão, com maior exposição a exportações e melhora esperada na oferta de gado após chuvas em Queensland. Analistas destacaram que a JBS vê mais alguns anos de oferta favorável no país, além de uma transição gradual para maior participação de gado confinado, o que pode reduzir volatilidade e dar mais previsibilidade às operações.

O evento também reforçou a tese financeira. Desde 2019, a JBS retornou quase US$ 10 bilhões aos acionistas via dividendos e recompras, acima de pares relevantes. A administração manteve a ambição de pagar cerca de US$ 1 bilhão por ano em dividendos, desde que a alavancagem permita. O corte de capex, portanto, foi lido como uma forma de preservar essa equação: crescimento, balanço e retorno ao acionista.

A listagem nos EUA completa a tese. A JBS ainda negocia com desconto em relação a empresas americanas de proteína, apesar de sua escala global e diversificação por regiões e categorias. A inclusão em índices como Russell e, mais adiante, uma possível entrada em índices da S&P, é vista como uma alavanca para ampliar base de investidores, aumentar demanda passiva e reduzir o desconto de valuation.

Para o Bradesco BBI, essa desconexão ainda é grande. “O desconto não parece refletir o potencial de re-rating, as melhorias operacionais e o poder de lucro normalizado”, escreveu o banco. O Morgan Stanley chegou a conclusão semelhante, ao dizer que o papel negocia a 5,7 vezes EV/Ebitda estimado para 2027, enquanto Tyson Foods negocia com prêmio de cerca de 28%.

O problema é que a tese de re-rating precisa atravessar um teste de lucros. Alguns bancos veem 2026 como o fundo cíclico do Ebitda, com retomada em 2027. Outros ainda enxergam risco de revisão para baixo nos números de curto prazo. A ação já reflete parte desse pessimismo, mas o mercado provavelmente exigirá evidências de que a carne bovina americana parou de piorar, que o frango virou no segundo semestre e que a Seara está capturando margem.

A JBS tentou entregar exatamente essa ponte: admitir a pressão de curto prazo, mostrar cortes concretos para defender o balanço e apontar motores de crescimento fora do ciclo mais difícil. É uma tese menos sobre o preço da carne amanhã e mais sobre a capacidade da empresa de usar escala, portfólio e disciplina de capital para sair maior do vale.

Para Wall Street, o Investor Day deixou uma pergunta simples. Se 2026 for mesmo o fundo, a JBS está barata. Se o ciclo de carne bovina dos EUA demorar mais e o frango continuar pressionado, o desconto pode persistir. Na visão dos analistas, a companhia saiu de Nova York tentando convencer investidores de que a resposta dependerá da execução.


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