By Brazil Stock Guide – A Amil registrou lucro líquido de R$ 5,4 bilhões em 2025, ante R$ 619,8 milhões em 2024, o maior entre as operadoras de saúde no Brasil, superando concorrentes como Bradesco Saúde, SulAmérica e a Hapvida, líder do setor em número de beneficiários. O resultado marca uma virada relevante pouco mais de um ano após a companhia deixar o controle da UnitedHealth Group e passar para as mãos do empresário José Seripieri Filho.
A empresa passou por uma reestruturação profunda após anos de deterioração operacional sob o antigo controlador. Os efeitos começam a aparecer em 2025. O lucro reportado sugere uma recuperação expressiva e coloca a Amil na liderança do setor em termos de rentabilidade.
A comparação com 2024 ajuda a dimensionar a velocidade dessa recuperação. A companhia já havia retornado ao lucro no ano anterior, após um período de perdas bilionárias, mas o salto em 2025 levou o resultado a um novo patamar.
O número, no entanto, exige leitura mais cuidadosa. Uma parcela relevante do resultado não veio da operação corrente, mas de efeitos contábeis e reorganizações societárias.
A companhia reconheceu R$ 2,1 bilhões em créditos tributários, decorrentes de prejuízos acumulados em anos anteriores. Além disso, registrou cerca de R$ 1,4 bilhão em ganhos associados à reorganização hospitalar com a Dasa, no contexto da criação de uma joint venture.
Ambos os efeitos não tiveram impacto direto no caixa. Ajustando esses fatores, o lucro recorrente fica em torno de R$ 1,9 bilhão, refletindo de forma mais fiel o desempenho operacional.
Ainda assim, há melhora real. A Amil conseguiu reduzir sua sinistralidade em 4,4%, com impacto de aproximadamente R$ 0,8 bilhão na redução de custos médicos. Em um setor pressionado por inflação médica, esse avanço é relevante.
A queda da sinistralidade indica maior disciplina na gestão de custos assistenciais, um dos principais determinantes de rentabilidade no setor de saúde suplementar.
A base de clientes também cresceu. Dados da ANS mostram cerca de 3,1 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares e aproximadamente 2,6 milhões em odontologia, evidenciando expansão relevante da operação.
O mix, porém, traz implicações. Planos odontológicos possuem ticket médio significativamente menor, o que significa que crescimento em volume não necessariamente se traduz em crescimento proporcional de receita.
Na prática, a geração de valor permanece concentrada no segmento médico, onde o ticket é mais elevado e o controle de custos tem maior impacto sobre margens.
A estratégia da companhia reflete essa dualidade. De um lado, expansão de base e ganho de escala. De outro, tentativa de elevar ticket médio e capturar segmentos de maior renda.
Nesse contexto, o lançamento do Amil Black marca um movimento relevante de reposicionamento, direcionado ao público premium.
Ao mesmo tempo, a estrutura do negócio passou por mudanças importantes. A criação da joint venture hospitalar com a Dasa reduziu a exposição direta da Amil a ativos intensivos em capital, alterando o perfil operacional da companhia.
Esse movimento sugere uma transição para um modelo menos verticalizado, com maior foco em gestão de risco e contratos, e menor dependência de ativos próprios.
A venda da Amil foi concluída em dezembro de 2023, quando a UnitedHealth decidiu sair do Brasil após anos de resultados pressionados e dificuldades em adaptar seu modelo ao sistema de saúde suplementar local. A operação foi estimada em cerca de R$ 11 bilhões, incluindo a assunção de dívidas.
Naquele momento, a Amil vinha de um período marcado por prejuízos bilionários, aumento de custos médicos e forte pressão sobre margens. O desafio não era crescer, mas estabilizar a operação e atender às exigências regulatórias, especialmente em relação às reservas técnicas.
Seripieri não é um recém-chegado ao setor. Ele fundou a Qualicorp, empresa que criou e consolidou o modelo de administradoras de benefícios no Brasil, ampliando a distribuição de planos de saúde por meio de contratos coletivos por adesão.
Após vender sua participação na Qualicorp, ele retornou ao setor com a criação da Qsaúde, posteriormente vendida, encerrando esse ciclo e abrindo caminho para a aquisição da Amil.
Diferentemente de suas iniciativas anteriores, a compra da Amil representou um salto de escala e complexidade. Em vez de construir uma operação do zero, Seripieri assumiu uma das maiores operadoras do país em um momento de fragilidade.
A nova gestão passou a atuar em múltiplas frentes, incluindo renegociação de contratos, controle de custos e reposicionamento de produtos, além de reequilibrar a companhia frente às exigências regulatórias de provisões.
O balanço reflete essa transformação. O patrimônio líquido avançou para cerca de R$ 13 bilhões, impulsionado pelos ganhos registrados no período.
Parte desse crescimento está associada aos efeitos contábeis reconhecidos, incluindo o aumento do ativo fiscal diferido, que reflete a expectativa de utilização futura de créditos tributários.
A estrutura de capital permanece leve, sem pressão relevante de endividamento, o que amplia a flexibilidade da companhia para executar sua estratégia.
O setor, no entanto, segue desafiador. A inflação médica continua pressionando custos, enquanto a judicialização e mudanças regulatórias adicionam incerteza ao ambiente competitivo.
O resultado de 2025 combina dois movimentos distintos: uma operação que melhora e um lucro amplificado por efeitos contábeis relevantes.
A Amil deixou para trás a fase mais aguda da crise e entra agora em um novo estágio, em que o desafio passa a ser transformar a recuperação em consistência. O lucro é recorde, mas a capacidade de repeti-lo ainda será testada.
