Petrobras abre mão do controle total da Braskem e divide poder com fundo

<p>Expectativa é de nafta mais competitiva, vista como chave para aliviar dívida e caixa da petroquímica.</p>

By Brazil Stock Guide – A Petrobras (PETR3, PETR4) formalizou a decisão de renunciar aos seus direitos e abrir mão do controle total da Braskem (BRKM5) ao assinar um novo acordo de acionistas com um fundo estruturado para assumir a posição hoje vinculada à Novonor (antiga Odebrecht) A estatal notificou formalmente que não exercerá seus direitos de preferência e tag along, eliminando incertezas jurídicas e destravando a transação.

O novo arranjo estabelece um modelo de controle compartilhado, com paridade na indicação de membros do conselho de administração e da diretoria estatutária, além da exigência de consenso em todas as deliberações relevantes — um sistema de veto cruzado permanente. O fundo Shine I — administrado pela IG4 Capital — concentra as dívidas dos credores e será o veículo central da substituição do controle hoje nas mãos da Novonor.

Esse desenho societário reflete uma mudança mais profunda na estrutura de poder da companhia. Ao vincular ações da Braskem a cerca de R$20 bilhões em dívidas, a Novonor acabou transferindo, na prática, o controle econômico da petroquímica para seus credores. Com a deterioração financeira do grupo, o crédito passou a exercer função de controle — abrindo caminho para a atual reconfiguração via fundo. A Novonor tinha um conselheiro a mais do que a Petrobras no board da Braskem.

O novo acordo de acionista ainda depende da conclusão da transferência das ações da Novonor para entrar em vigor – a decisão deve ser anunciada em breve no âmbito do processo de recuperação judicial da holding da antiga Odebrecht. Até lá, a estrutura atual permanece. Como parte do processo, Petrobras e o FIP também devem propor um novo estatuto social para a Braskem, onde serão definidos os mecanismos mais sensíveis de governança, incluindo quóruns e poderes internos.

Nafta em jogo

Superada a dimensão societária, o foco do mercado se desloca para a operação — e, sobretudo, para o contrato de nafta. A Petrobras é a principal fornecedora de matéria-prima da Braskem, com a nafta respondendo por cerca de 70% dos custos da companhia no Brasil. A expectativa é que o novo alinhamento permita condições comerciais mais favoráveis, um fator visto como essencial para restaurar margens e geração de caixa.

A promessa de condições mais favoráveis vai além de um simples desconto. No mercado, analistas apontam que o novo arranjo pode envolver mudanças na fórmula de precificação da nafta, prazos mais longos de pagamento, maior previsibilidade de volumes e ajustes em cláusulas como take-or-pay — mecanismos que, combinados, funcionariam como uma forma indireta de suporte à liquidez. Na prática, um novo contrato pode funcionar como uma alavanca de sobrevivência.

A ideia é evitar uma recuperação judicial — ou até extrajudicial —, mas algum tipo de fôlego dependerá necessariamente da Petrobras, disse uma fonte a par das discussões.

O histórico desse contrato reforça sua relevância. O fornecimento de nafta entre Braskem e Petrobras esteve na origem de parte das tensões que levaram a petroquímica ao centro da Operação Lava Jato — um dos primeiros abalos no processo de deterioração da companhia. Ao longo dos últimos 15 anos, a empresa também perdeu competitividade estrutural com a ascensão do gás natural de baixo custo do shale nos Estados Unidos, que redefiniu a curva global de custos da indústria petroquímica.

Hoje, o peso desse insumo aparece de forma clara nos números. O custo do produto vendido (CPV) da Braskem somou cerca de R$69 bilhões em 2025 , refletindo a forte dependência de matérias-primas. Nesse contexto, uma redução de 10% no custo da nafta poderia gerar um ganho potencial próximo de R$3 bilhões no EBITDA, praticamente dobrando a geração operacional atual. Mesmo considerando uma conversão mais conservadora, entre 70% e 80% desse efeito, o impacto ainda seria suficiente para alterar de forma relevante a trajetória financeira da companhia.

Nesta semana, o Bradesco BBI avaliou que a companhia pode ter algum alívio no curto prazo com a aprovação do projeto Presiq de subsídios tributários, as tarifas antidumping sobre polietileno (PE) contra produtos dos Estados Unidos e Canadá e o aperto temporário da oferta global de produtos, impulsionado pelo conflito no Irã. Ainda assim, o banco destaca que os fundamentos operacionais e a estrutura de capital da Braskem seguem pressionados.

Mesmo em um cenário em que a guerra sustente spreads elevados até o fim de 2026, a análise de sensibilidade do banco indica que a alavancagem pode voltar a superar 10 vezes a dívida líquida sobre o Ebitda em 2027 — um nível amplamente considerado insustentável. Nesse contexto, o sucesso da nova estrutura de controle dependerá menos do desenho societário e mais da capacidade de transformar a nova relação comercial dos novos donos da Braskem com a Petrobras em geração efetiva de caixa.

Leia mais: Novo acordo de acionistas pode engessar decisões na Braskem com limites estreitos de atuação


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement