By Brazil Stock Guide — A Raízen fechou o ano-safra 2025/26 com um prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões, em um dos maiores tombos já registrados por uma companhia brasileira de capital aberto em termos nominais, colocando a crise da empresa no mesmo mapa dos grandes choques contábeis do mercado brasileiro. Os resultados foram divulgados nesta segunda-feira, dia 29. O calendário fiscal da empresa encerrou em março.
O número não supera os casos históricos de Vale e Petrobras em 2015, quando as duas gigantes reportaram perdas de R$ 44,2 bilhões e R$ 34,8 bilhões, respectivamente. Mas é grande o suficiente para entrar na galeria dos maiores prejuízos corporativos do país e ultrapassa, em valor nominal, o prejuízo de R$ 21,6 bilhões registrado pela Petrobras em 2014, no auge do impacto inicial da Lava Jato sobre seus balanços.
No caso da Raízen, a perda foi amplificada por uma combinação de impairment de R$ 22,5 bilhões, aumento das despesas financeiras, baixa de ativos e custos ligados ao processo de recuperação extrajudicial. A companhia encerrou o período com dívida líquida de R$ 58,2 bilhões e alavancagem de 5,2 vezes o EBITDA ajustado, ante 3,2 vezes um ano antes.
A fotografia é particularmente dura porque o resultado operacional ajustado não colapsou na mesma proporção. O EBITDA ajustado anual ficou em R$ 11,3 bilhões, queda de apenas 2,3% sobre o ano anterior. Mas o EBITDA contábil caiu 92%, para R$ 1,1 bilhão, mostrando a distância entre a narrativa de recuperação operacional e o estrago provocado pelo balanço.
A empresa tenta enquadrar o momento como uma virada estrutural. No relatório, a administração afirma que reduziu custos e despesas em cerca de R$ 1 bilhão, cortou CAPEX em R$ 3,3 bilhões e avançou na simplificação do portfólio, com impacto positivo estimado de R$ 12 bilhões na posição financeira.
Mas o centro da história está na recapitalização. O plano de recuperação extrajudicial prevê um aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell, possível contribuição de R$ 500 milhões da Aguassanta e a conversão de 45% dos créditos reestruturados em participação acionária, por meio de units compostas por ações ordinárias e preferenciais da Raízen. Os 55% restantes seriam substituídos, refinanciados ou aditados por novos instrumentos de dívida.
Há, portanto, duas Raízens no mesmo balanço. Uma é a companhia operacional, ainda dona de ativos relevantes em combustíveis, açúcar, etanol e bioenergia. A outra é uma empresa com estrutura de capital deteriorada, custo financeiro elevado e necessidade urgente de reorganização patrimonial.
O principal contraponto positivo veio da distribuição de combustíveis no Brasil. O segmento reportou EBITDA ajustado de R$ 5,7 bilhões no ano-safra, alta de 35,5%, com expansão de volumes e melhora de margem. A unidade brasileira de combustíveis ajudou a amortecer a queda em açúcar, etanol e bioenergia, onde a menor moagem, os preços mais fracos de açúcar e a queda de produção pesaram sobre o resultado.
Ainda assim, a Raízen está tentando mostrar que há um negócio viável por baixo da dívida, mas o prejuízo de R$ 27 bilhões mostra que a reestruturação deixou de ser uma escolha financeira e virou condição para preservar a companhia.
Para investidores, a pergunta agora não é apenas quanto a Raízen pode gerar de EBITDA em um ciclo normalizado. É quanto desse valor ficará com os atuais acionistas depois da conversão de dívida em capital, dos aportes dos controladores e da reorganização dos ativos.
O prejuízo bilionário transforma a Raízen em um dos casos mais emblemáticos da atual safra de desalavancagem no Brasil: uma empresa estratégica, apoiada por acionistas fortes, com operação relevante, mas cujo balanço ficou pesado demais para ser resolvido apenas com eficiência operacional.
