Saúde Suplementar Lucra R$ 6,3 Bi, Mas Pressão de Custos Aumenta

<p>Setor de saúde suplementar manteve resultado positivo no primeiro trimestre, mas viu despesas crescerem mais rápido que receitas e lucro cair 11,6%.</p>

By Brazil Stock Guide – A saúde suplementar brasileira fechou o primeiro trimestre de 2026 ainda lucrativa, mas com sinais mais claros de pressão operacional. O setor regulado pela ANS registrou R$101 bilhões em receitas totais, alta de 8,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as despesas avançaram 11%, para R$93,1 bilhões. O lucro líquido consolidado caiu 11,6%, para R$6,3 bilhões.

A fotografia geral continua positiva. Segundo a ANS, 77,7% das operadoras encerraram o trimestre com resultado líquido positivo, e as operadoras médico-hospitalares — principal segmento do setor — somaram lucro líquido de R$6 bilhões. O resultado operacional agregado ficou em R$3,4 bilhões, enquanto o resultado financeiro somou R$3,6 bilhões, reforçando o peso das aplicações financeiras na rentabilidade do setor.

O balanço também mostra a escala da saúde suplementar no Brasil. O mercado médico-hospitalar reunia 693 operadoras e quase 53 milhões de beneficiários no fim de março. A carteira segue concentrada em planos coletivos: 84% dos vínculos estavam em contratos empresariais ou por adesão, contra 16% em planos individuais ou familiares. Na prática, o setor continua fortemente ligado ao mercado de trabalho, à renda e à capacidade das empresas de absorver reajustes.

Ressalvas da ANS

A leitura, porém, exige cautela. Na apresentação do balanço, Washington Oliveira Alves, da ANS, ressaltou que os dados divulgados são informações financeiras brutas, enviadas pelas próprias operadoras, sem tratamento individualizado prévio da agência. Ele também destacou que a queda do lucro no trimestre foi influenciada de forma relevante por uma operadora de grande porte que adotou uma política de provisionamento para sua carteira.

Segundo Alves, esse efeito foi não recorrente e respondeu por parte importante da redução do lucro agregado. A ressalva é relevante porque evita uma leitura excessivamente negativa do setor como um todo. Sem esse provisionamento extraordinário, o resultado operacional das operadoras médico-hospitalares poderia ter ficado mais próximo — ou até acima — do resultado financeiro.

Ainda assim, o dado expõe uma fragilidade estrutural. O resultado financeiro já responde por quase metade do desempenho final do setor. As operadoras médico-hospitalares encerraram março com cerca de R$140,5 bilhões em aplicações financeiras, entre recursos livres e ativos garantidores. Em um ambiente de juros elevados, esse caixa funciona como amortecedor para margens pressionadas por custos médicos, sinistralidade e despesas assistenciais.

Grandes operadoras

No recorte individualizado, o Bradesco Saúde aparece como o principal destaque positivo entre as grandes operadoras. A companhia registrou resultado operacional de R$1,02 bilhão, resultado financeiro de R$818,5 milhões e lucro líquido de R$1,11 bilhão no primeiro trimestre, com 3,32 milhões de beneficiários médico-hospitalares. A Amil Assistência Médica Internacional também ficou no azul, com lucro líquido de R$519,7 milhões, resultado operacional de R$473,4 milhões e resultado financeiro de R$220,4 milhões, em uma carteira de 3,12 milhões de beneficiários médico-hospitalares e 2,68 milhões de beneficiários odontológicos.

Entre as empresas ligadas ao grupo Hapvida, o painel mostra resultado positivo nas duas principais operações listadas. A Hapvida Assistência Médica teve lucro líquido de R$275,3 milhões, com resultado operacional de R$302,9 milhões, resultado financeiro de R$26,9 milhões e 4,38 milhões de beneficiários médico-hospitalares. A Notre Dame Intermédica Saúde também encerrou o trimestre com lucro, de R$202,2 milhões, apesar de resultado financeiro negativo de R$97,5 milhões; a operação tinha 3,29 milhões de beneficiários médico-hospitalares e 2,60 milhões de beneficiários odontológicos.

A Porto Seguro Saúde apareceu entre os destaques positivos, com lucro líquido de R$234,6 milhões. No sistema Unimed, o quadro foi heterogêneo: a Unimed Seguros Saúde lucrou R$238,2 milhões, e a Unimed do Brasil — Confederação Nacional das Cooperativas Médicas lucrou R$165,9 milhões. Algumas cooperativas regionais, porém, apareceram no vermelho, como a Unimed do Estado do Rio de Janeiro, com prejuízo de R$47,5 milhões, a Unimed Teresina, com perda de R$22,5 milhões, e a Unimed Vale do Aço, com prejuízo de R$15,9 milhões.

SulAmérica no vermelho

A SulAmérica Companhia de Seguro Saúde ficou na ponta oposta. A operadora registrou resultado operacional negativo de R$2,06 bilhões, provisões de R$2,7 bilhões e prejuízo líquido de R$694,7 milhões, o maior resultado negativo individual no painel do trimestre. Mesmo com resultado financeiro positivo de R$407,8 milhões e resultado patrimonial positivo de R$270,4 milhões, a companhia não conseguiu compensar o impacto do provisionamento.

A leitura da SulAmérica exige uma ressalva adicional. O número do painel da ANS destoa do balanço societário da controladora. Nas demonstrações financeiras da Rede D’Or, a linha Cia Saúde – SulAmérica aparece com resultado operacional positivo de R$1,13 bilhão e resultado do período positivo de R$736,6 milhões no primeiro trimestre. A diferença não significa, por si só, erro em uma das bases: o painel da ANS segue lógica regulatória, por registro de operadora e dados enviados via DIOPS, enquanto o ITR da Rede D’Or segue critérios societários e contábeis de consolidação.

Ainda assim, a divergência reforça a necessidade de explicação adicional sobre a reconciliação entre os dois números. Para o leitor, o ponto central é que o painel regulatório capturou uma provisão bilionária que tornou a SulAmérica o caso mais sensível do trimestre, enquanto a controladora apresentou uma leitura societária positiva da mesma linha de negócios. Procurada, a SulAmérica não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para a atualização.


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