Troca de CEO na Qualicorp testa turnaround e derruba ações

<p>Eduardo Oliveira diz que sucessão representa continuidade da estratégia construída com Maurício Lopes, mas BTG e JPMorgan veem incerteza; papel cai até 14%.</p>

Por Brazil Stock Guide – A Qualicorp (QUAL3) entrou em uma nova fase de seu processo de reestruturação com uma mudança de comando que testou imediatamente a confiança dos investidores. As ações da corretora de planos de saúde chegaram a cair quase 14% nesta segunda-feira e ainda recuavam cerca de 8% por volta do meio-dia, em São Paulo, depois de a companhia anunciar que Maurício Lopes deixará o cargo de diretor-presidente no fim de agosto para assumir a presidência do conselho de administração. Eduardo Oliveira, atual vice-presidente, será o novo CEO.

A mudança vem sendo apresentada pela companhia como uma transição administrada. Em teleconferência com analistas e investidores, Lopes afirmou que a sucessão foi planejada com antecedência e alinhada com o conselho, acionistas e demais stakeholders. Segundo ele, Oliveira vinha sendo preparado para assumir o cargo havia cerca de dois anos e participou diretamente da formulação estratégica adotada desde o início de sua gestão.

Transição planejada

Lopes disse que a nova estrutura busca ampliar o alinhamento entre administração e conselho, com um colegiado mais atuante em temas estratégicos e operacionais. Isso inclui o relacionamento com operadoras de saúde e outros parceiros relevantes do setor. O executivo afirmou que a Qualicorp segue focada em execução e que a companhia está “em boas mãos” sob a liderança de Oliveira.

Eduardo Oliveira, advogado e ex-professor de inglês, também tentou enquadrar a mudança como continuidade. Segundo ele, a transição representa a continuidade do que a empresa vem construindo nos últimos anos, sem alteração na estratégia. O foco seguirá em redução de custos, estabilização da base de clientes, crescimento comercial e fortalecimento das relações com operadoras de saúde.

“Vamos continuar e temos ciência dos desafios do que ainda não foi realizado no turnaround”, disse Oliveira durante a teleconferência.

O futuro diretor-presidente afirmou que a Qualicorp continuará trabalhando para reduzir despesas, incluindo custos fixos e despesas variáveis ligadas à judicialização, além de aprimorar processos internos e avançar na automação. Ele também citou retenção de clientes, redução do churn e aumento do tempo de permanência da base como prioridades da próxima fase da reestruturação.

Bancos divididos

Os bancos de investimento receberam o anúncio com diferentes graus de cautela. O Bradesco BBI manteve visão neutra para o ativo, destacando que Lopes atuará como presidente executivo do conselho e permanecerá diretamente envolvido com o novo CEO. Para o banco, a transição foi desenhada para preservar a estratégia da Qualicorp, baseada em eficiência operacional, realinhamento comercial e expansão do portfólio de produtos.

O Goldman Sachs também apontou a solução interna como um fator que reduz a incerteza operacional. O banco afirmou que Lopes teve papel relevante na tese de reestruturação da companhia, incluindo avanços nos indicadores de cancelamento e na ampliação do portfólio de planos por afinidade para pequenas e médias empresas. Ainda assim, o Goldman destacou que Oliveira esteve diretamente envolvido na execução do processo nos últimos anos, o que tende a reduzir o risco de ruptura estratégica.

Dúvida sobre receita

O problema é que a reação do mercado mostrou que os investidores queriam mais do que continuidade. O BTG Pactual afirmou que recebeu o anúncio de forma negativa. O banco ressaltou que Lopes tem ampla experiência no setor de saúde, com passagens pela agência reguladora, pela SulAmérica e pela Rede D’Or, e liderou o turnaround da Qualicorp nos últimos três anos. Na visão do BTG, sua saída da linha executiva adiciona incerteza a uma tese que ainda depende fortemente de execução.

O JPMorgan foi mais cético. O banco manteve recomendação de venda para as ações da Qualicorp, argumentando que os desafios operacionais continuam exigentes para a nova gestão. Os analistas reconheceram que a administração anterior estabilizou a geração de caixa e conteve a alavancagem, mas afirmaram que a questão central agora é saber se Oliveira conseguirá destravar o crescimento da receita.

“A principal dúvida dos investidores continua sendo se Oliveira conseguirá sustentar as melhorias operacionais ao mesmo tempo em que avança para a próxima fase do turnaround: melhorar o momentum comercial, estabilizar a receita e entregar uma criação de valor mais consistente”, afirmou o JPMorgan em relatório. O banco acrescentou que a pressão persistente sobre a receita ainda reduz a visibilidade de médio e longo prazo sobre a geração de fluxo de caixa livre da companhia.

Papel menos líquido

A queda chamou atenção também porque a Qualicorp já não é o nome líquido de índice que foi no passado. A ação já fez parte do principal universo de índices da bolsa brasileira, mas hoje negocia com liquidez muito menor, o que pode ampliar movimentos de preço quando investidores reavaliam a tese de investimento.

Esse ponto importa porque o modelo de negócios da Qualicorp ainda precisa provar que sua recuperação pode ir além do controle de custos. O BTG observou que a proposta de valor dos planos de saúde por afinidade – planos coletivos por adesão – segue sendo fortemente questionada pelas operadoras de saúde, sem sinais claros de inflexão até agora. Para o mercado, a dúvida não é apenas se a Qualicorp pode continuar cortando despesas, mas se conseguirá voltar a crescer.


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